Relatório Reuters 2026 - Parte 2: A guerra contra o "Lixo Digital"

Nesta segunda parte da nossa série de cinco matérias sobre o Journalism and Technology Trends and Predictions 2026, relatório do Reuters Institute, vamos falar sobre mais uma batalha que os publishers precisam travar. Enquanto a internet é inundada pelo “AI Slop” (lixo gerado por IA), editores descobrem que a única maneira de vencer a máquina é ser radicalmente humano. Saiba onde investir e o que cortar em 2026, para fugir da maré do lixo digital.
Se na primeira parte desta série falamos sobre a morte do tráfego de busca, agora precisamos falar sobre o que você oferece a quem (ainda) chega até você. O relatório do Reuters Institute traz um alerta claro: a era da “notícia commodity” acabou. Se o seu modelo editorial ainda depende de reescrever press releases, publicar “o que passa na TV hoje” ou guias genéricos de viagem, você está em rota de colisão com uma onda gigantesca de AI Slop .
Perdeu a primeira parte desta série sobre o Relatório Reuters? Você pode vê-la clicando aqui!
Mas o que é AI Slop?
O termo “AI Slop” define a enxurrada de conteúdo automatizado de baixa qualidade, sites falsos e vídeos sintéticos que estão poluindo a web. Investigações recentes mostram que quase um em cada dez canais de crescimento rápido no YouTube já são totalmente gerados por IA, e sites de “notícias zumbis” (que parecem locais, mas são escritos por robôs) já superam os sites de notícias reais em alguns lugares dos EUA.
Neste cenário caótico, onde ninguém sabe o que é real, a sua marca jornalística precisa de distinção (Distinctiveness).
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O adeus ao “Jornalismo de Serviço” genérico
Pela primeira vez, vemos um consenso entre os editores entrevistados de que certos tipos de jornalismo devem ser abandonados ou totalmente automatizados, pois as IAs generativas já os fazem melhor e mais rápido.
De acordo com o relatório Reuters, os publishers planejam reduzir drasticamente o foco em:
• Jornalismo de Serviço (-42 pontos de intenção): O “como fazer” básico.
• Notícias Gerais (-38 pontos): O factual simples que todo mundo tem igual.
• Conteúdo Evergreen (-32 pontos): Artigos de gaveta que não trazem novidade.
A lógica que leva a estas decisões é fria: se o ChatGPT pode resumir isso em três segundos, por que o leitor pagaria (com dinheiro ou tempo) para ler a sua versão?
A aposta no “Human Premium”
Em contrapartida, os editores estão dobrando a aposta naquilo que a máquina não consegue replicar: a experiência humana e a presença física. O relatório indica um aumento massivo de foco em:
1. Reportagem de campo/Investigação original (+91 pontos).
2. Análise contextual e curadoria (+82 pontos).
3. Histórias Humanas (+72 pontos).
Taneth Evans, do Wall Street Journal, resume bem o sentimento do relatório: “A melhor resposta do jornalismo é dobrar a aposta nas coisas que nos tornam valiosos e únicos”. Isso significa que a assinatura de um repórter, a voz de um analista e a o contato real e pessoal da reportagem local valem mais do que nunca.
O conceito de “Conteúdo Líquido”
Outra tendência fascinante (e técnica) que surge no relatório é a ideia de Conteúdo Líquido. Em 2026, pensar em “artigos” é antiquado. O conteúdo precisa ser “atômico” e flexível, capaz de mudar de forma.
Imagine uma matéria que não é um bloco de texto estático, mas uma base de dados que a IA adapta: para um usuário apressado, ela vira um áudio de 30 segundos no carro; para um estudante, um resumo em tópicos; para um assinante premium, uma análise profunda em vídeo.
O conteúdo se molda ao contexto do usuário. Editores como o VG na Noruega já estão reestruturando suas redações para produzir esses “objetos atômicos” em vez de textos fechados.
O Que Fazer?
Para que sua empresa não se afogue no mar de AI Slop, aqui estão os movimentos estratégicos que você deve liderar agora, baseados nos dados de 2026:
INSIGHT 1. Realize uma auditoria de “commodities”
Olhe para a sua produção diária. O que ali poderia ser escrito por uma IA com 90% de precisão? Se a resposta for “muita coisa”, você tem duas opções: automatizar esses processos para liberar seus humanos (como a Newsquest fez, criando “repórteres assistidos por IA” para tarefas básicas) ou cortar essa produção. Não coloque humanos caros para fazer trabalho de robô.
INSIGHT 2. Invista na “procedência digital” como produto
Em um mundo de deep-fakes, provar que seu conteúdo é real é um ativo comercial. O relatório destaca o crescimento da tecnologia de Procedência Digital (como o padrão C2PA/Coalition for Content Provenance and Authenticity). Enquanto um certificado digital autentica a identidade de uma pessoa ou empresa, esta tecnologia autentica a história e a integridade de um conteúdo ou dado. Comece a estudar como implementar “selos de verificação” técnica em suas fotos e vídeos. A confiança será a moeda mais forte contra a desinformação.
INSIGHT 3. Transforme jornalistas em personalidades
A distinção passa pelo rosto e pela voz. O público confia menos em logotipos institucionais e mais em pessoas. O relatório mostra que 76% dos publishers vão incentivar seus jornalistas a agirem mais como “criadores”. Dê liberdade (com diretrizes claras) para seus talentos aparecerem em vídeo, opinarem e criarem conexões diretas em redes como TikTok e LinkedIn. O anonimato da “voz do jornal” é um risco de irrelevância.
INSIGHT 4. Prepare-se para a estratégia Barbell
O mercado está se dividindo em dois extremos: de um lado, operações ultraeficientes e automatizadas de alto volume; do outro, butiques de jornalismo humano de altíssima qualidade e custo. O meio termo — fazer jornalismo mediano com custo alto — é a zona da morte. Decida em qual ponta da barra sua publicação vai se segurar e especialize-se nela.
INSIGHT 5. Estruture dados, não apenas histórias
Para entrar na era do “Conteúdo Líquido”, sua equipe de produto precisa parar de pensar em páginas web e começar a pensar em bancos de dados estruturados. Seu conteúdo precisa ser rotulado e segmentado para que as IAs (as suas e as das Big Techs) consigam remixá-lo para diferentes formatos (áudio, vídeo, resumos) sem perder a precisão.
Você pode baixar a íntegra do Journalism and Technology Trends and Predictions 2026 clicando aqui.
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*Usamos o Notebook LM para a divisão estrutural e construção de parte do texto deste material.


