A vida após a Vida Simples: Luciana Pianaro fala sobre burnout e a coragem para recomeçar

A vida após a Vida Simples: Luciana Pianaro fala sobre burnout e a coragem para recomeçar

9 de março de 2026
Última atualização: 9 de março de 2026
10min
Luciana Pianaro ex-publisher Vida Simples novo rumo na carreira Coragem livro e portal ia aplicada ao desenvolvimento humano
Márcia Miranda

Durante anos, Luciana Pianaro foi a mente por trás da Vida Simples, uma marca que virou sinônimo de bem-estar, saúde mental e busca pela essência. Colecionadora das edições da revista desde o seu lançamento, em 2002, Luciana comprou a marca em 2018.

Nos bastidores, no entanto, a rotina da publisher passava longe da tranquilidade estampada nas páginas: engolida pela dura transição para o digital, pela dificuldade de gerar caixa como empreendedora solo e por um segundo burnout, ela precisou tomar a decisão mais difícil de sua carreira e vender o próprio negócio para priorizar a sua saúde e a convivência com o filho. Foi o fim de um ciclo, mas o início de uma reestruturação profunda.

Agora, olhando o mercado editorial um pouco mais “de fora”, Luciana traz diagnósticos precisos sobre as dores que assombram redações e diretorias por todo o país. Para ela, o maior erro dos grandes veículos é tentar inovar criando novos formatos — como podcasts e newsletters — enquanto mantêm uma hierarquia engessada e o medo constante de canibalizar o papel.

Além disso, ela toca em um ponto muito sensível dos publishers independentes: o enorme desafio de tentar transformar um negócio sem ter acesso a investimentos reais.

Após um merecido ano sabático em 2025 para cuidar de si mesma, a executiva retorna ao mercado de cara nova. Com o lançamento do livro CORAGEM!, um projeto de mentorias e a estruturação de uma nova empresa focada em desenvolvimento humano com uso de inteligência artificial, Luciana prova que a vulnerabilidade não diminui a autoridade de um líder; pelo contrário, a humaniza.

Nesta entrevista exclusiva, ela reflete sobre os vícios do jornalismo e deixa um recado fundamental para você, profissional do mercado editorial, que se sente estagnado e sabe que chegou a hora de dar um salto na carreira. Confira o bate-papo.

Como tem sido a tua rotina sem o fechamento mensal de uma revista?

Após a venda da Vida Simples e muitos anos sem férias (vida de empreendedor!), decidi me dar ao luxo de fazer um sabático pessoal e profissional. Durante o ano de 2025, eu tirei o ano para cuidar de minha saúde, fazendo exames e cirurgias que eu postergava há tempos. Pude estar mais presente na vida do meu filho, que tem 10 anos – levava e buscava na escola, participava de todas as atividades escolares. Havia tempos que também queria escrever um livro, fiz isso. Lancei o livro CORAGEM!, em outubro/25. Profissionalmente, queria entender para onde iria caminhar, ampliar meus horizontes. Conversei com muitas pessoas. Neste momento, pouco mais de um ano após a venda, estou encontrando um novo caminho profissional.

Você foi o rosto e a mente por trás da Vida Simples por muito tempo, uma marca que fala de essência, bem-estar, humanidades. Como foi o processo interno de “desapegar” de uma estrutura editorial consolidada para se tornar, você mesma, o próprio empreendimento? Onde terminou a publisher e começou a empreendedora solo?

Foi muito difícil. A Vida Simples foi o maior projeto que havia desenvolvido e investido até então. O conteúdo que a marca produzia (e continua a produzir) é essencial ao momento em que vivemos: elevar a consciência das pessoas para cuidarem mais de si, de sua saúde, de sua mente. Entretanto, eu era uma empreendedora totalmente sozinha, muito afetada – como todos – pela entrada do digital, não conseguia gerar caixa e simplesmente estava adoecida. Vida Simples falava de saúde mental, mas eu, a publisher, não tinha mais saúde. A decisão da venda veio após um segundo burnout. Eu optei pela minha saúde. Precisava estar bem para cuidar de meu filho – sou mãe solo. Consegui encontrar compradores e realizei o processo, com dor no coração, mas alívio na alma.

E qual sua avaliação sobre a Luciana empreendedora solo?

A empreendedora solo está em andamento, com atuações em palestras, treinamentos e mentorias sobre empreendedorismo e liderança. Também estou desenvolvendo uma nova empresa, focada na área de desenvolvimento humano com uso de IA.

O mercado editorial brasileiro enfrenta desafios constantes de monetização e relevância. Olhando agora “de fora”, qual você acredita ser o maior erro que os grandes veículos ainda cometem ao tentar empreender em novos formatos?

O maior erro, na minha visão, é tentar inovar sem mudar a estrutura e o mindset que sustentam a operação. Os veículos criam podcasts, newsletters, eventos, mas mantêm a mesma hierarquia, os mesmos processos decisórios, a mesma lógica de produção. A inovação real exige coragem para abandonar o que não funciona mais, e não apenas adicionar novos formatos em cima de uma estrutura engessada. Mas também pude perceber durante meus anos na Vida Simples, como fazer essa transição é difícil – o medo de canibalizar o modelo tradicional nos paralisa. Eu fiz muitos estudos para mudar o formato da publicação impressa. Bimestral, trimestral, bi-anual. Criei projetos educacionais, comunidades. Fiz de forma muito consistente a transformação digital. Mas, isso não significou um aumento expressivo na receita, até porque, os custos cresceram.

E, na tua visão, o que falta para que as empresas consigam inovar de verdade?

Vejo que falta acesso a investimento real. E esse talvez seja o maior desafio que os publishers, especialmente os pequenos, têm: como inovar, sem acesso a recursos? Você quer trazer alguém diferente para a equipe, mas não consegue pois não gera caixa que permita o investimento. Pelo menos na Vida Simples, estava sendo dessa forma. Mas isso custa, pois é algo que precisa acontecer no paralelo à operação. E, dificilmente um publisher pequeno e independente como era meu caso, consegue esses recursos.

O projeto “Minha Coragem” parece nascer de uma vulnerabilidade muito honesta. Em um mercado de trabalho que muitas vezes exige “armaduras”, como você equilibra a exposição da sua história pessoal com a construção de uma autoridade profissional?

Eu aprendi que vulnerabilidade não é o oposto de autoridade – é o que torna a autoridade verdadeira. Durante anos, liderei equipes em vários projetos, tomei decisões difíceis, errei muito. Mas foi quando comecei a falar sobre minhas próprias crises, medos e recomeços que as pessoas realmente se conectaram. O mercado não precisa de mais gente fingindo que está tudo sob controle. Precisa de líderes que tenham coragem de mostrar o processo, não só o resultado. Minha autoridade vem de 20 anos de experiência real, de erros e acertos, de ter construído, de ter quebrado e de ter  vendido empresas. A vulnerabilidade não diminui isso – ela humaniza. E quando você lidera a partir desse lugar de honestidade, as pessoas confiam mais, se abrem mais, transformam mais. Não é sobre tirar a armadura completamente. É sobre escolher conscientemente quando usá-la e quando deixá-la de lado. Não precisamos de personagens, precisamos de pessoas reais. Eu não consigo ser aquilo que não sou realmente.

O livro e a plataforma não parecem ser apenas produtos, mas sim um ecossistema. Qual é a estrutura do modelo de negócio da Minha Coragem? Como você pretende escalar esse impacto sem perder a pessoalidade que o projeto exige?

Criei essa plataforma para centralizar os conteúdos que eu continuei a produzir, mesmo depois da saída da Vida Simples e que falam sobre desenvolvimento, sobre decisões, usando como pano de fundo o tema Coragem, pois muitas vezes é isso que impede as pessoas de avançar em novos rumos. Comprar a Vida Simples foi um ato de Coragem. Vendê-la também. E a vida nos pede isso o tempo todo!
Como forma de monetizar, a plataforma, o usuário pode comprar os serviços que ofereço: palestras para empresas, mentorias individuais, treinamentos. Tudo muito customizado. Não vejo como escalar, até porque a entrega depende de mim. A escala virá dessa outra plataforma que estou desenvolvendo, com base em IA.

“Comprar a Vida Simples foi um ato de Coragem. Vendê-la também. E a vida nos pede isso o tempo todo!”

Para o profissional que está hoje no mercado editorial, sentindo-se estagnado mas com medo de saltar: qual foi o sinal mais claro que você recebeu de que era hora de mudar?

Chegou um momento em que o negócio parecia estagnar e, para manter minha própria sanidade, optei por deixá-lo continuar nas mãos de pessoas que sei que poderiam fazê-lo seguir bem. Foi necessário desapegar de um sonho e acreditar que era o melhor a fazer, por mim e pelo negócio. Me estruturei financeiramente para conseguir fazer essa transição.
Digo o mesmo para o profissional desse mercado: seja no jornalismo ou em qualquer área, todos temos nossos momentos de repensar nossas vidas, nossas carreiras. Mas o que diferencia quem faz mudanças de quem não faz é a coragem e a atitude. Por vezes, não conseguimos sustentar uma mudança pelo medo, pela falta de planejamento, por não confiar tanto em nós. Faça uma autoanálise honesta, planeje-se financeiramente e tenha coragem de dar o salto. Confia em você e em seu potencial.

Empreender no Brasil é um exercício diário de resiliência. Quais são as suas métricas de sucesso para essa nova fase da vida? O que te fará chegar ao final de 2026 e dizer: “valeu a pena cada risco”?

Minhas métricas vão além dos números, embora eles importem e muito. Quero chegar ao final de 2026 com minha nova plataforma no ar e com os primeiros clientes conquistados.

O que realmente vai me fazer dizer “valeu a pena” é perceber que consegui conectar os pontos: 25 anos de empreendedorismo, todas as batalhas, aprendizados e cicatrizes, agora trabalhando a favor do crescimento de outras empresas, sejam elas grandes corporações ou negócios familiares.

Minha missão sempre foi a mesma, em todos os negócios que construí: criar espaços onde as pessoas possam se desenvolver e prosperar. Se em 2026 eu olhar para trás e ver empresas crescendo não só em faturamento, mas também em cultura, em ambientes mais humanos e saudáveis para trabalhar, aí sim – cada risco terá valido absolutamente a pena.

Se você pudesse editar a “manchete” da sua vida para os próximos cinco anos, qual seria o título da capa?

Talvez algo neste sentido: “Coragem para transformar: como uma empreendedora serial está provando que empresas podem crescer com propósito e as pessoas no centro”.

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e Abap e divisões internas da TV Globo.