Tendências de mídia no relatório Dentsu Creative 2026: 'slow content' e a curadoria humana

Sempre no início do ano fazemos um apanhado dos relatórios de tendência de mídia que circulam pelo mundo, inspirando e alertando empresários e responsáveis pela criação de estratégias e produtos para os clientes. Depois do maravilhoso artigo de Lulu Skantze, sobre o Trend Union Webinar, trazemos o relatório Dentsu Creative 2026. Ele aponta que, diante da enxurrada de conteúdo sintético, a sobrevivência dos publishers dependerá da valorização do capital humano, da aposta em nichos de fandom e do resgate de formatos analógicos.
Para gestores de comunicação e editores que navegam a transformação digital, o cenário para 2026 apresenta um paradoxo: a tecnologia que acelera a produção é a mesma que está acabando com a confiança do público. Segundo o o capítulo Generative Realities, do relatório da Dentsu, estamos entrando em uma era de resistência ao algoritmo, onde a eficiência da Inteligência Artificial (IA) deve ser equilibrada com empatia e curadoria humana.
INSIGHT 1: Para as redações, o diferencial competitivo não está mais na velocidade da notícia, mas na profundidade e na “humanidade” da conexão.
O combate ao “Slop” e a ascensão do Slow Content
O termo técnico que deve entrar no vocabulário das redações é “slop” — uma designação para o conteúdo de baixa qualidade, produzido em massa por IA, que hoje inunda as plataformas. O relatório indica que quase 1 em cada 10 canais de rápido crescimento no YouTube já é totalmente alimentado por IA, e mais de 50% do tráfego da internet é gerado por bots. Sinal preocupante para empresas de comunicação sérias, que precisam manter a qualidade e confiabilidade de seus produtos.
Mas onde alguns veem crise, outros enxergam oportunidades. A estatística também representa uma oportunidade estratégica para o mercado editorial. À medida que plataformas como Spotify e YouTube tomam medidas para barrar esse conteúdo massificado, o público demonstra um apetite renovado por “slow content” (conteúdo lento e reflexivo).
Isso já impacta modelos de negócios tradicionais. A Vogue, por exemplo, anunciou uma mudança de edições mensais para trimestrais focadas em temas, privilegiando mergulhos profundos na cultura em vez da cobertura rápida. O dado que sustenta essa guinada é robusto e é nosso segundo ponto de destaque.
INSIGHT 2: 54% da Geração Z afirma estar recorrendo a conteúdos mais lentos e gratificantes como resposta a um feed de notícias repleto de material descartável.
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A marca “Feito por Humanos” como ativo de luxo
A confiança é a moeda mais valiosa do jornalismo, e ela está sob pressão. Apenas 46% dos consumidores confiam na sua própria capacidade de identificar conteúdo gerado por IA. Mais alarmante para os publishers: a confiança em artigos cai drasticamente quando o texto “parece” ter sido gerado por máquina.
A estratégia recomendada para 2026 é a transparência radical e a valorização do autor. Marcas e veículos estão começando a investir em pequenos equívocos e imperfeição humana proposital. Campanhas como a da Canon no Brasil, “No Click, No Prompt” (veja abaixo), reforçam que a intuição e a vivência do fotógrafo (ou do jornalista) são insubstituíveis. E chegamos ao nosso terceiro destaque.
INSIGHT 3: Rotular conteúdo como “feito por humanos” ou destacar a autoria pessoal não é apenas uma questão ética, mas uma estratégia de posicionamento premium em um mar de homogeneidade algorítmica.
Atomização da audiência: Fandoms e “Third Spaces”
O modelo de “broadcast” (um para muitos) continua a perder força. O público não quer apenas consumir informação; quer pertencer. O relatório destaca que 59% das pessoas gostam do fato de que “nem todos entendem” as coisas que amam.
Para revistas e jornais, isso sugere uma mudança editorial: menos generalismo e mais verticais de comunidade. Os “fandoms” (grupos de fãs) são mais barulhentos e orgulhosos do que nunca. Veículos que conseguirem atuar como conectores dessas comunidades, preenchendo o vácuo deixado pela perda de locais de socialização além de casa e trabalho, terão maior lealdade.
Isso se reflete também na monetização. O relatório cita o crescimento do “clipping” como modelo de receita, onde streamers e influenciadores vendem ou distribuem trechos curtos de conteúdos maiores para engajar a atenção fragmentada da Gen Z. E aí chega o nosso quarto destaque.
INSIGHT 4: Facilitar o trabalho do seu fã (notem que não escrevi leitor!) no acesso à informação de que ele precisa e gosta de ver é uma necessidade urgente. Nada de sites que não abrem, cliques perdidos, inúteis, excesso de pop ups. E, por favor, seja leve ao comunicar. Descomplique a vida do seu fã.
O retorno do analógico e a desconexão
Por fim, há um movimento contra-intuitivo que favorece o impresso e as experiências físicas. Diante de um mundo online hostil e saturado, 40% dos consumidores globais afirmam que o mundo digital é tão estressante que tentam se desconectar o máximo possível.
Existe uma “nostalgia por tempos mais simples”, impulsionando o interesse por hobbies analógicos e estéticas pré-digitais (como a fotografia em filme ou revistas impressas de alta qualidade). Para o mercado de revistas, isso não sinaliza o fim do digital, mas o reposicionamento do papel. E vamos para o nosso destaque número 5!
INSIGHT 5: O papel deixa de ser veículo de notícia quente para se tornar um objeto de “luxo acessível” e desconexão, focado em design e curadoria.
Resumindo os insights do Dentsu Creative 2026 sobre tendências de mídia para redações
1. Evite o “Workslop”: Não utilize IA para criar volume de conteúdo irrelevante. O uso indiscriminado gera ineficiência e afasta o leitor.
2. Invista na Assinatura: O texto autoral, opinativo e com “voz” humana é o antídoto contra a pasteurização algorítmica. Cerca de 63% dos consumidores buscam marcas e conteúdos que se engajem com suas paixões específicas.
3. Crie Rituais: Em um mundo de fluxo contínuo, formatos que criam hábito e “parada” (como newsletters aprofundadas ou edições especiais) ganham valor.
4. Olhe para o Hiperlocal: Com a saturação global, cresce o interesse por histórias e vivências locais. 58% dos consumidores estão explorando mais seus próprios países e culturas locais em vez de olhar para fora.
5. Be real: Ofereça o que a IA não consegue replicar: perspectiva, imperfeição e comunidade real.
A íntegra do relatório Dentsu Creative 2026 sobre tendências de mídia, pode ser baixada aqui.
*Esse texto usou o Notebook LM para resumo direcionado das 47 páginas do relatório Dentsu Creative


