Tendências na Europa: os destaques de Lulu Skantze sobre o Trend Union Webinar

Fazia algum tempo que eu não tinha acesso direto ao conteúdo da Trend Union, mas acompanho e admiro o trabalho deles desde o início dos anos 2000. Por isso, o webinar “Enlightenment” na primeira semana de janeiro, conduzido por Li Edelkoort, me pareceu a forma certa de começar o ano inspirada.
Sempre acreditei que tendências começam nas pessoas e não nos produtos que criamos. Elas nascem dos humores coletivos, dos medos, dos desejos, das esperanças e das tensões de cada época. Ao observar esses movimentos com atenção, começamos a perceber padrões, cores, formas e narrativas que emergem como respostas culturais ao mundo em que vivemos.
Para quem ainda não conhece o trabalho deles, a Trend Union é uma das mais respeitadas agências internacionais de trend forecasting, fundada em 2003, especializada em analisar movimentos culturais, sociais e comportamentais para antecipar tendências de longo prazo. Eles produzem diferente de relatórios focados apenas em mercado ou consumo imediato, partindo de uma leitura profunda da sociedade (valores, tensões, desejos e transformações) para orientar setores como moda, design, mídia, arquitetura, educação e publishing. Suas revistas e livros impressos são referência global, reconhecidos pela curadoria visual rigorosa, pela abordagem sensível e pelo entendimento de que tendências precisam de tempo, contexto e reflexão para fazer sentido.
Mindfulness, consciência, vodu, misticismo e ocultismo
Li Edelkoort é uma das mais influentes e respeitadas trend forecasters do mundo. Holandesa, ela construiu uma carreira singular ao longo de décadas, atuando como consultora para grandes marcas, instituições culturais e governos, além de ter sido diretora da Design Academy Eindhoven. Reconhecida por sua visão humanista, Li analisa tendências não como modismos, mas como sinais culturais profundos, frequentemente ligados a espiritualidade, comportamento, política e identidade. Já mencionei anteriormente, é uma das profissionais que mais admiro, editorialmente, também. Eu a conheci durante o curso de Mestrado na Central Saint Martins em Londres, e sigo seu trabalho desde então. Sempre digo que ela me ensinou a observar como a cultura se move, se repete, se reinventa e aponta caminhos para o que vem à seguir.
Durante uma hora intensa de imagens, sons e reflexões, Li nos conduziu por temas como mindfulness e manifestação, consciência e minimalismo, animismo e vodu, Oriente e Ocidente, misticismo e ocultismo. Assuntos que não apenas permanecem relevantes, mas continuam moldando moda, design, cultura e sociedade de forma profunda e transversal.
A apresentação “Enlightment” é de 2019/2020, e isso é uma informação essencial para entender sua força. Tendências não são instantâneas; elas levam tempo para amadurecer. Este foi o conteúdo mais vendido da história da Trend Union e hoje, alguns anos depois, ele atinge seu pico de relevância. Em um mundo instável, as pessoas olham para dentro, buscando significado, rituais e pertencimento. O design deve acompanhar esse movimento.
O fazer manual como sinônimo de cuidado e resistência
De acordo com o Trend Union Webinar, o que emerge agora é um desejo coletivo por ancoragem e gentileza como ato de resiliência que atravessa crenças, geografias e culturas. Nos materiais apresentados, vemos tecidos naturais, sobreposições, formas que envolvem e protegem, volumes que acolhem, múltiplos tons de vermelho ao lado de cores mais silenciosas. Do Ascetismo ao Universalismo, do Taoismo ao Ocultismo, surgem objetos com alma, onde o fazer manual é entendido como cuidado. Criar passa a ser, também, um gesto de resistência ao caos que nos cerca.
Em vez de desejar um simples “Feliz Ano Novo”, Li falou sobre um mundo dividido entre sobreviver e escapar, marcado pela ganância e pela exaustão. Nesse cenário, o surreal, o mágico e o espiritual tornam-se espaços de respiro e imaginação. Arte e design nos ajudam a atravessar esses tempos com mais serenidade.
Papel e impressão: símbolos de permanência?
Decidi escrever sobre isso não apenas por admiração pelo trabalho da Li e da Trend Union, mas porque algo que ela compartilhou dialoga diretamente com debates do nosso setor editorial. A Trend Union talvez seja uma das últimas grandes casas de forecasting que ainda acredita profundamente na impressão, e no papel. Por convicção na sua importância em ser fiel ao conteúdo que eles criam. Pela qualidade, pela concentração, pela permanência. Seus materiais impressos são extraordinários. Verdadeiros objetos de arte, lentos, densos e intencionais. Exatamente como as ideias e predicamentos precisam ser.
Para a indústria editorial isso é um poderoso sinal, ver “players” como a Trend Union fazendo essa opção. Em tempos acelerados, saber dar valor a melhores interpretações ao invés das reações rápidas é gratificante. O forecasting de qualidade ajuda editores, publishers e criadores a compreender contextos, antecipar movimentos e construir narrativas relevantes, com profundidade e responsabilidade cultural. E ao mesmo tempo, valorizar esse conteúdo impresso, também reforça o valor do papel como tendência.
Em tempos incertos, não precisamos de respostas mais rápidas e sim, de tempo para compreender, de histórias que façam sentido e que nos ajude a enxergar com mais clareza. Talvez este ano nos convide a continuar exercitando o que começamos em 2025: a sermos um pouco mais gentis, um pouco mais espirituais e muito mais humanos.
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