Lulu Skantze: Insights da Bett London e o que esperar da Bett Brasil, em junho!

Neste novo artigo, nossa correspondente e parceira da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) na Holanda, Lulu Skantze, visitou a Bett, a Feira Britânica de Tecnologia Educacional. Criada em 1985 para promover uma educação melhor em todo o mundo, a feira é hoje o maior evento semanal do calendário educacional mundial, com mais de 35 mil visitantes e mais de 600 expositores. E o que isso tem a ver com jornalismo? Tudo! A tecnologia apresentada na feira chamou a atenção da nossa colaboradora, que é, também, a criadora da Revista StoryTime. E foi com esse olhar, de publisher preocupada com a educação, que ela trouxe os melhores insights para nosso site. Confira!
Eu vou à Bett desde quando ela era uma feira de educação com materiais impressos, mobiliário escolar, fornecedores e a sensação de que a educação era o centro, e EdTech não era o termo central do evento.
Este ano, bastou entrar no pavilhão da Excel para sentir o quanto o cenário educacional mudou. A Bett é hoje, essencialmente, uma feira de tecnologia.
A educação continua lá, mas tentando se posicionar dentro de um cenário que virou de cabeça para baixo. A própria Bett se define agora como um evento global de EdTech em grande escala: dezenas de milhares de participantes, centenas de expositores do mundo inteiro. Essa escala é parte do fascínio e , também, parte da exaustão.
Além disso, a BETT já não é mais apenas um evento local. Com eventos no Brasil e na Ásia, e o anúncio recente de uma edição nos Estados Unidos este ano, a marca da Bett se firma como um ponto de encontro global para educação e tecnologia. No Brasil, a próxima edição já está no radar, e tende a ser um dos pontos altos do calendário educacional na América Latina. A Bett Brasil 2026 acontece de 05 a 08 de maio, em São Paulo.
Onde quer que você escolha participar, suspeito que o tom da conversa será parecido. A tecnologia tornou a educação global (de verdade), a maioria das empresas presentes está focada em estudantes espalhados pelo mundo. Muitas crianças em países diferentes aprendem com o mesmo software. Mas essa globalização também aumenta a responsabilidade e não deve apenas ser feita de conteúdos traduzidos: ideias precisam aterrissar em salas de aula com contextos, recursos e realidades muito diferentes.
O paradoxo da IA
O que mais me marcou este ano não foi a presença da IA – isso já é fato – mas foi perceber o quanto o ecossistema se tornou um pouco canibal.
De um lado, inúmeras plataformas se apresentam como a solução, com muito conteúdo gerado automaticamente e focado especialmente em velocidade e volume. Depois de algumas conversas seguidas, tudo começa a soar parecido. Meu filtro normalmente é: Consigo entender qual problema essa solução resolve?
Do outro lado do corredor, uma indústria de contenção aparece. Desde ferramentas para detectar uso de IA e verificar autoria até as que policiam limites, inclusive dentro da sala de aula, em trabalhos e tarefas de alunos. Nesta mesma semana, assinei meu primeiro contrato que exigia explicitamente a confirmação de que não usamos IA generativa em nosso processo criativo.
A mensagem que chega parece contraditória: “use IA ou você ficará para trás.” E ao mesmo tempo, “prove que você não usa IA.”
O ponto de equilibrio está em manter valores, qualidade e a responsabilidade humana no que colocamos diante das crianças.
Viver no “ambos”
Como criadora, confesso que me sinto um pouco “estressada” a respeito. Quero proteger o trabalho original, as ideias humanas, o cuidado artesanal com o conteúdo. Aprecio o tempo que uma boa história leva para ser escrita e, até agora, nada criado por IA me causou o mesmo impacto.
Como publisher, sou mais pragmática. Usamos IA em partes do nosso dia a dia: organização de arquivos, análise de dados, identificação de padrões e tarefas administrativas. A IA devolve tempo e foco, se bem usada.
Mas a Bett confirma, a meu ver, que não precisamos de mais conteúdo automatizado por si só. A educação precisa de melhores experiências de aprendizagem, de melhores histórias e de mais clareza sobre as ferramentas: para quê existem e a quem servem.
Onde a educação apareceu
Curiosamente, os estandes que se destacaram não eram os de “conteúdo de IA”. Eram aqueles onde as crianças estavam brincando, construindo, criando. A Kahoot distribuiu coroas e capas roxas – e foi um sucesso absoluto. Os elementos físicos de brincar: jogo, contação de histórias e interação com o conteúdo, continuam em alta.
Quando damos às crianças algo real para pegar, uma história para imaginar e espaço para interagir entre si, a aprendizagem acontece além dos dashboards. Depois de tanto falar de tecnologia, o que apareceu mais pra mim foi o unplugged play.
A tecnologia já está presente em tudo, mas nada me convenceu de que o futuro será simplesmente mais tela. Suspeito que o desafio será fazê-lo mais físico, mais social e humano, com a tecnologia nos bastidores.
De ferramentas a ecossistemas
Uma ideia que também se consolidou em Edtech (como em outras áreas que cobrimos sempre) é a transição de “ferramentas” para ecossistemas. As soluções mais interessantes não são as mais “coloridas ou barulhentas”, e sim as que se integram ao que já está sendo usado e apoiam professores a serem eficientes e medirem performance.
Claro que esses ecossistemas só funcionam quando as bases são pedagógicas e os exemplos são evidência, inclusão e conteúdo. Em tempos de excesso tecnológico, as ideias precisam vir antes mais do que nunca.
Sou defensora há tempos de abordagens multimodais para o ensino interativo, é aí que vejo verdadeiro potencial do que vimos na Bett.
O sinal político
No palco da BETT, temos sempre discussões interessantes – desde a BBC, ao departamento de educação discutindo o novo curriculum. Também vale observar o movimento institucional acontecendo: a Bett lançou um Simpósio Ministerial, reunindo líderes globais de educação, formuladores de políticas e inovadores para sair do discurso e ir para a ação. Isso é importante porque o futuro da EdTech não será definido apenas por startups ou compras públicas, mas por políticas, padrões, segurança e confiança. Acho importante fazer parte disso, como criador também.
Ainda estamos aprendendo a lidar com tudo isso e a conversa só está começando. A IA já está embutida em quase todas as ferramentas que usamos. Onde começa, então, a fiscalização? Onde termina a responsabilidade?
E o que fica de um evento?
Saí da Bett um pouco dividida e bastante cansada. Há muito investimento, boa vontade, mentes brilhantes e intenção genuína de melhorar a educação. Isso é algo que me empolga sempre. Mas também fica a dúvida: será que está claro o suficiente para todos que simplesmente despejar mais conteúdo sobre crianças não resolve o problema?
Talvez o teste mais simples para qualquer EdTech seja este: isso ajuda crianças a aprender de forma mais profunda ou melhor? E ajuda professores a ensinar com mais facilidade?
Como acontece com toda tecnologia que realmente importa: o problema que ela resolve é claro? E o mundo fica um pouco melhor com ela? É disso que realmente me interessa fazer parte!


