Relatório Reuters 2026 – Parte 4: Como usar IA Agêntica na sua redação?

Relatório Reuters 2026 - Parte 4: Como usar IA Agêntica na sua redação?

23 de fevereiro de 2026
Última atualização: 23 de fevereiro de 2026
7min
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Márcia Miranda

Aqui está a quarta parte da nossa série exclusiva sobre o Reuters Digital Report 2026. Se nas edições anteriores falamos sobre como o conteúdo chega ao público, agora vamos abrir as portas e olhar para dentro da redação. A IA deixou de ser apenas uma ferramenta de “escrever textos rápidos” para se tornar a infraestrutura do negócio. Bem-vindo à Era da IA Agêntica.

Você se lembra de quando o ChatGPT surgiu e todo mundo achou que ele escreveria todas as notícias do dia seguinte? Bem, chegamos a 2026 e o relatório do Reuters Institute traz um choque de realidade: para a maioria dos executivos (42%), o impacto da IA nas redações até agora foi apenas “limitado”, e para outros 44%, “promissor”. Apenas 13% descrevem a mudança como “transformacional”.

Essa aparente calmaria na superfície esconde uma revolução nos bastidores. O foco mudou drasticamente da “IA Generativa de Texto” (fazer a máquina escrever lides) para a Automação de Back-End e a IA Agêntica.

Mas o que é IA Agêntica?

IA Agêntica é uma forma avançada de inteligência artificial focada na autonomia. Ela é capaz de definir metas, planejar e executar fluxos de trabalho complexos, com mínima intervenção humana, indo além da simples geração de conteúdo. Ela atua de forma proativa, diferente da IA tradicional. Utiliza ferramentas, APIs e colaborando com outros sistemas.

O Fim do “Glamour”, o início da eficiência

Os dados mostram que os publishers pararam de tentar fazer a IA ganhar o Prêmio Pulitzer e começaram a usá-la para pagar as contas. A automação de tarefas “chatas”, como transcrição, tagueamento de metadados, revisão de texto é a prioridade número um para 64% dos líderes, superando de longe a criação de conteúdo.

Mas o dado mais surpreendente do relatório é o salto no uso de IA para programação e desenvolvimento de produtos, que cresceu 16 pontos percentuais em um ano, chegando a 44% de importância estratégica. Ferramentas como Claude e ChatGPT agora permitem que jornalistas sem conhecimento técnico criem protótipos de aplicativos e ferramentas em minutos — uma prática que ganhou o nome de “Vibe Coding”.

E o que é Vibe Coding?

O conceito Vibe Coding foi criado em 2025 e popularizado por Andrej Karpathy (ex-OpenAI). Trata-se de um método de desenvolvimento de software baseado em IA onde o programador deixa de se concentrar na escrita do código e passa a expressar suas intenções em linguagem natural, enquanto agentes de IA se encarregam da implementação técnica.

Em vez de uma pessoa escrever cada linha de código manualmente, ela descreve o que deseja criar. A IA cuida da parte técnica, sugerindo códigos prontos, montando estruturas básicas e automatizando tarefas repetitivas.

Chegam os “Agentes”: a IA que trabalha sozinha

Se 2024 foi o ano do Chatbot (você pergunta, ele responde), 2026 é o ano da IA Agêntica (você dá uma meta, e ele executa o trabalho).

A pesquisa destaca que não estamos mais apenas “conversando” com a máquina; estamos delegando funções complexas a ela.

Investigação Pesada: O New York Times usou IA para transcrever e analisar milhares de horas de vídeos e podcasts para traçar o perfil de Charlie Kirk (um ativista de direita). O que antes levaria um ano para uma equipe humana, foi feito em duas semanas.

O “Cão de Guarda” Digital: O jornal finlandês Helsingin Sanomat criou “bots de vigilância” que monitoram canais de Telegram russos 24 horas por dia, alertando os repórteres humanos apenas quando há movimentações suspeitas ou notícias relevantes.

Gêmeos digitais de assinantes para testar manchetes

Talvez a inovação mais fascinante (e levemente assustadora) citada no relatório venha da Suécia. O jornal Svenska Dagbladet (SvD) está criando Gêmeos Digitais dos seus assinantes.

Em vez de gastar milhares de dólares e semanas organizando focus groups presenciais, o jornal usa “personas” de IA baseadas em dados reais de seus leitores para testar manchetes e pautas. O editor pergunta ao “Agente Leitor”: “Você clicaria nesta matéria?”. E a IA, simulando o comportamento do assinante, responde. Consultores afirmam que esses participantes sintéticos já produzem outputs de qualidade similar aos humanos.

E os Empregos?

A pergunta de um milhão de dólares. O relatório traz um dado que contraria o pânico generalizado: 67% dos executivos afirmam que não cortaram nenhum emprego devido à IA até agora. A tecnologia está sendo usada majoritariamente para eficiência e expansão de capacidades, não para substituição direta em massa — embora o surgimento de redações de uma pessoa só, como a Velora Cycling (onde um humano gerencia todo o fluxo de notícias com ajuda de IA), mostre que o modelo de “exército de repórteres” está sendo desafiado.

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O Que Fazer? O manual do gestor para a Era Agêntica

A sua redação não pode ficar parada esperando a próxima versão do GPT. Para transformar essa tecnologia em vantagem competitiva e operacional, reunimos algumas dicas:

INSIGHT 1. Democratize o código (“Vibe Coding”)

Pare de depender do departamento de TI para tudo. Incentive seus editores e gerentes de produto a usarem IA para criar suas próprias micro-ferramentas. Se um repórter precisa de um “raspador de dados” para um site do governo, ele deve ser capaz de pedir à IA para programar isso. A agilidade na criação de protótipos será um diferencial competitivo vital.

INSIGHT 2. Crie seus próprios “agentes” de pesquisa

Antes de lançar um novo produto ou vertical editorial, por que não testá-lo sinteticamente? Comece a experimentar a criação de “personas de IA” baseadas nos dados da sua audiência para testar títulos, imagens e abordagens. Isso é mais barato e rápido do que testes A/B em tempo real e protege sua marca de erros públicos.

INSIGHT 3. Automatize a vigilância, humanize a história

Siga o exemplo do Helsingin Sanomat. Identifique quais fontes de dados (Dion, processos judiciais, redes sociais) seus repórteres gastam horas monitorando manualmente. Crie agentes de IA para fazer essa vigília e liberar seus humanos para a parte que a máquina não faz: ligar para as fontes e checar a veracidade do que o robô encontrou.

INSIGHT 4. Auditoria de “Back-End”

Seus jornalistas ainda estão transcrevendo entrevistas manualmente? Ainda estão preenchendo tags de SEO na mão? Isso é queimar dinheiro. Audite todos os processos da redação que não envolvem criatividade direta e implemente soluções de IA via API para resolvê-los. A meta é: humano só toca no que exige julgamento e empatia.

INSIGHT 5. Cuidado com o “Workslop”

O relatório alerta para a explosão de “lixo corporativo” gerado por IA (workslop) — emails, relatórios e apresentações prolixos e vazios que destroem a produtividade interna. Estabeleça uma cultura clara: a IA deve ser usada para sintetizar e acelerar, não para inflar a comunicação interna com textos que ninguém vai ler.

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O relatório completo do Journalism and Technology Trends and Predictions 2026 pode ser baixado clicando aqui.

*Usamos o Notebook LM para a divisão estrutural e construção de parte do texto deste material.

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Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e Abap e divisões internas da TV Globo.