Conheça as tendências do Relatório Reuters 2026

Se falamos de tendências e mudanças no mercado de jornalismo, não poderíamos deixar de abordar, neste início de ano, o Journalism and Technology Trends and Predictions 2026, relatório do Reuters Institute. A pesquisa de mercado, coordenada pelo incrível Nic Newman, é elaborada a partir de uma amostra estratégica de 280 líderes digitais de 51 países e territórios. No estudo deste ano, é evidente o impacto da IA generativa no cenário publishing editorial. E há ainda o avanço dos criadores de conteúdo e influenciadores que estão impulsionando as notícias centradas em personalidades e mudando o cenário para instituições de mídia, que muitas vezes parecem menos relevantes.
Para que o estudo, de 47 páginas, fique menos “pesado”, dividimos o conteúdo em cinco partes e vamos trazê-lo aqui, em uma série de cinco matérias. Elas vão traçar um panorama do mercado publishing no mundo, com suas inseguranças, incertezas e apostas.
Parte 1: O “Apocalipse” do Tráfego e a Ascensão dos Motores de Resposta
Parte 2: A Estratégia de Conteúdo: “Distinctiveness” contra o “AI Slop”
Parte 3: A “Video-ficação” de Tudo e o Desafio dos Criadores
Parte 4: IA na Redação: Da Automação à Agência
Parte 5: O Cenário de Negócios: Pressão Política e Modelos de Receita
Vamos à primeira, delas!
O fim do clique: Como sobreviver ao “apocalipse” do tráfego e à era das respostas
Esqueça o termo “motor de busca”. Se você ainda baseia a estratégia de distribuição do seu veículo na ideia de que um usuário digita uma palavra-chave, vê uma lista de links azuis e clica no seu site, tenho más notícias. Ou melhor, o Reuters Institute tem. Estamos entrando oficialmente na era dos Motores de Resposta (Answer Engines), e o impacto disso no tráfego digital não é apenas uma oscilação: é uma mudança estrutural profunda.
Os dados do relatório “Journalism and Technology Trends and Predictions 2026” anuncia: as coisas não vão voltar “ao normal”. A previsão média dos publishers ouvidos é de que o tráfego vindo de buscas caia cerca de 40% nos próximos três anos. E não pense que isso é futurologia distante. Dados agregados da Chartbeat mostram que o tráfego orgânico do Google para sites de notícias já caiu 33% globalmente e 38% nos Estados Unidos entre 2024 e 2025.
O Fenômeno “Zero-Click”
O vilão — ou a evolução, dependendo do ponto de vista — atende pelo nome de AI Overviews. Essas caixas de resumo geradas por inteligência artificial já aparecem no topo de cerca de 10% das buscas nos EUA. O problema para nós, produtores de conteúdo, é óbvio: se o Google (ou o ChatGPT, ou a Perplexity) entrega a resposta pronta ali mesmo, o usuário não precisa clicar.
A pesquisa chama isso de “busca zero-clique”. E o cenário é agravado pelo fato de que as redes sociais, antigas aliadas na distribuição, abandonaram o barco do jornalismo. O tráfego de referência do Facebook despencou 43% e o do X (antigo Twitter) caiu 46% nos últimos três anos.
Para piorar, a esperança de que os chatbots de IA salvariam o dia enviando tráfego novo ainda é apenas isso: uma esperança. Embora o ChatGPT e a Perplexity estejam crescendo, o volume de referências que eles enviam é, por enquanto, quase um erro de arredondamento estatístico comparado ao volume massivo (mas decrescente) do Google.
O mito da mina de ouro do licenciamento
Muitos editores olharam para essa crise e pensaram: “Tudo bem, se as IAs vão usar nosso conteúdo para treinar seus modelos e dar respostas, elas vão nos pagar caro por isso”. Cuidado com o otimismo exagerado.
O relatório mostra que o mercado está dividido e cético. Apenas 20% dos executivos de mídia esperam que o licenciamento de conteúdo para empresas de IA gere receitas significativas. A maioria (49%) espera apenas uma contribuição financeira menor, e outros 20% — principalmente veículos menores e locais — não esperam receber nenhum centavo. Os grandes acordos estão ficando concentrados em poucos players de elite, deixando a cauda longa do jornalismo à deriva.
O que os publishers podem fazer?
Diante deste cenário de “terra arrasada” no tráfego, chorar sobre o algoritmo derramado não vai cobrir a folha de pagamento. Com base nas tendências apontadas para 2026, aqui está o que sua empresa precisa colocar na pauta estratégica imediatamente para não se tornar irrelevante:
INSIGHT 1. Troque o SEO pelo AEO (Answer Engine Optimisation)
O velho SEO (otimização para motores de busca) está perdendo prioridade nas redações (-25 pontos de intenção de foco). A nova fronteira é o AEO. Sua equipe técnica e editorial precisa entender como estruturar o conteúdo para que ele seja a fonte preferencial das respostas dadas pelos robôs. Isso significa investir em consultorias especializadas ou ferramentas que ajudem seu conteúdo a ser “citável” e visível dentro das interfaces de chat.
INSIGHT 2. Abrace a “liquidez” do conteúdo
O conceito de “Conteúdo Líquido” está emergindo. Isso significa que sua reportagem não pode ser um bloco de texto estático esperando uma visita no site. Ela precisa ser um objeto flexível, capaz de ser adaptado em tempo real pela IA para diferentes contextos e plataformas. Se o usuário quer um resumo no navegador ou uma resposta em áudio no carro, seu conteúdo precisa estar formatado para ser essa resposta.
INSIGHT 3. Saia do isolamento: conheça o conceito de “Nato for News”
Negociar sozinho com gigantes como Google ou OpenAI é difícil. O relatório sugere uma tendência de união: iniciativas como a Really Simple Licensing (RSL) ou modelos de negociação coletiva (“Nato for News“). Verifique se sua empresa está participando de associações ou consórcios que buscam padronizar termos de pagamento e atribuição. A força está no coletivo para garantir que o uso de dados via feeds seja remunerado, e não apenas “raspado”.
INSIGHT 4. O foco no “direto” é inegociável
Se a torneira do Google e do Facebook está fechando, você precisa ser dono do seu destino. A queda na dependência de terceiros exige um foco renovado em canais que você controla: newsletters, aplicativos próprios e eventos. O tráfego pode ser menor, mas a conversão e a lealdade precisam ser maiores. A estratégia de sobrevivência não é mais sobre alcance massivo indiscriminado, mas sobre relevância indispensável para um público que sabe quem você é, sem precisar “dar um Google”.
O relatório completo do Journalism and Technology Trends and Predictions 2026 pode ser baixado clicando aqui.
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*Usamos o Notebook LM para a divisão estrutural e construção de parte do texto deste material.


