Ecossistemas de mídia: precisamos trabalhar juntos!

Sempre vivi o setor editorial dividido de forma muito clara entre livros, revistas/periódicos e jornais. Por algum motivo, passamos décadas acreditando que éramos diferentes uns dos outros. Até que a tecnologia chegou e todos tivemos que entrar nesse espaço também, sem saber muito bem como manter nossas identidades. As primeiras linhas de fusão apareceram, depois veio o áudio com os podcasts, audiobooks… e logo estávamos todos falando sobre nos tornar ecossistemas. Pelo menos é isso que está na lista de desejos de qualquer mídia que queira prosperar. Falamos muito disso, mas ainda vejo muitas das nossas estruturas originais operando de forma independente.
Os profissionais de cada um desses grupos tendem a divergir sobre estarmos juntos ou não. Como em um mundo polarizado, tive conversas este ano em que alguns se identificam como conservadores por não quererem unir forças, enquanto outros querem ser aliados em nossas associações e redes, seja para advocacy ou eventos do setor, para troca ou até mesmo porque querem trabalhar nos dois espaços.
A velha máxima é inevitável: juntos somos mais fortes. Então, no último artigo do ano, quis escrever sobre a boa notícia de duas das maiores associações do mundo se unindo por aqui. A notícia de que a FIPP e a WAN-IFRA estão se juntando ressoa fortemente com o que acredito: colaboração “crossborder”, quebra de silos e construção de ecossistemas de mídia robustos em escala global.
A FIPP sempre foi uma rede centrada em revistas e mídia desde 1925, construída em torno de editoras de revistas. Com o tempo, expandiu para incluir um conjunto mais amplo de proprietários de mídia, criadores de conteúdo e empresas editoriais globais. Sua missão central sempre foi facilitar o compartilhamento de conhecimento, a troca de boas práticas, parcerias estratégicas, consultoria, treinamento e ajudar negócios de mídia a crescer internacionalmente.
A WAN-IFRA é a Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias que, como o nome diz, historicamente representa organizações de notícias classicas: jornais, veículos digitais e mídias relacionadas. Sua rede é voltada para o jornalismo raiz, a edição de notícias e os desafios específicos enfrentados por esse setor: disrupção digital, confiança, monetização, plataformas globais e por aí vai.
Ecossistemas de mídia: aprendizados e advocacy compartilhados entre todos os membros
A aliança estratégica anunciada em março de 2025 (com entrada em vigor em 2026) é um sinal claro de que as fronteiras entre “mídia de revista” e “mídia de notícias” estão se desfazendo. Enquanto escrevo isso, penso que parece bastante “antiquado” até pensar assim. Com plataformas digitais, mobile, newsletters, long-reads e multimídia, muitos editores já transitam entre os dois mundos. Ao unir forças, o setor reconhece que conteúdos e audiências cada vez mais se sobrepõem e temos mais chances de sucesso nesses espaços. As duas entidades manterão suas identidades (por enquanto) e alguns eventos separados, mas os membros terão acesso a ambos os ecossistemas e ao conhecimento combinado. Ao começar a conviver mais, e dividir mais, imagino que as identidades ficarão mais próximas e talvez não separadas por muito mais tempo talvez. Veremos!
Outro ponto que essa união evidencia é que escala, alcance e redes globais importam mais do que nunca. A associação combinada afirma cobrir mais de 20.000 marcas de mídia e empresas de tecnologia em mais de 80 países. Para expansão internacional de revistas, licenciamento global, distribuição ou para redações interessadas em aprender com o estilo long-form das revistas ou seus modelos de assinatura, essa escala pode abrir portas reais.
Também temos enfrentado desafios semelhantes há anos e falado dos mesmo assuntos. Desafios compartilhados exigem soluções compartilhadas. Questões como transformação digital, disrupção causada pela IA, queda nas receitas de publicidade, dependência de plataformas, pressões de copyright e licenciamento, confiança e qualidade, afetam tanto revistas quanto jornais. Uma entidade combinada pode reunir recursos e força de advocacy para enfrentá-los de forma mais sólida.
Potencial de parceria, colaboração global e novos modelos de negócio
Pessoalmente, sempre trabalhei entre esses mundos, especialmente com edição de livros e licenciamento, e por isso acho a polinização cruzada de ideias e inovação entre formatos algo extremamente inspirador. Um ecossistema integrado permite que essas práticas circulem: uma redação pode aprender estratégias de assinatura com uma editora de revistas; uma revista pode adotar modelos de engajamento comunitário ou ritmos de cobertura diária de um veículo digital.
No geral, a união deve trazer aos dois ecossistemas mais potencial de parceria, colaboração global e novos modelos de negócio. Para editoras, essa convergência pode abrir caminhos: licenciar conteúdos no estilo jornalístico, co-branding, projetos em formatos cruzados ou colaborações com veículos de notícias para alcançar novos públicos ou mercados. E isso é só por cima, uma vez que o que realmente acontece de novo ainda nem podemos prever, o que para mim, é o mais legal de expandir o networking.
Juntos, ganhamos mais poder de negociação, estratégias mais fortes de advocacy e uma posição mais unificada na defesa do valor do nosso conteúdo. Uma entidade maior, representando um recorte mais diverso da mídia, pode defender de forma mais eficaz o licenciamento justo de conteúdo, remuneração adequada para criadores e o combate a práticas injustas como scraping, mau uso de IA ou zero-click news. O apelo à união foi explicitamente ligado às pressões criadas pela IA e pelo conteúdo massificado.
Acredito realmente que isso criará uma resiliência muito maior diante das disrupções do setor. Uma rede unida ajuda editores a compartilhar conhecimento e se apoiar na experiência . Diria até que demoramos demais para dar esse passo. Se nada mais, estar unidos como mídia nos deixará mais preparados para o que vem pela frente. Espero que muitas associações ao redor do mundo sigam esse caminho também, e se você ainda está considerando essa ideia, vale observar o que acontecerá em 2026 com a FIPP e a WAN-IFRA para aprender com esse processo.


