Relatório Reuters 2026 - Parte 3: Quando o jornalista vira influencer

Se você tem acompanhado as duas primeiras partes deste dossiê, já sabe que o tráfego de busca está secando e o conteúdo genérico perdeu valor. Mas para onde foi a atenção do público? A resposta do relatório “Trends and Predictions 2026” do Reuters Institute é clara e barulhenta: ela foi para o vídeo, e não é qualquer vídeo. As redes sociais não querem mais os seus links e o público não quer mais ler textão. Bem-vindo à era em que a sua redação precisa funcionar como um estúdio de Hollywood.
Estamos vivendo a “crise de meia-idade” das redes sociais. O velho modelo de “conectar amigos e família” morreu. Dados revelados pela Meta em processos judiciais mostram que apenas 17% do tempo no Facebook e míseros 7% no Instagram são gastos com conteúdo de conhecidos. O resto? É um fluxo infinito de entretenimento em vídeo servido por algoritmos de recomendação, desenhados para manter o usuário preso no feed, sem nunca clicar para sair.
O resultado para os publishers foi devastador: o tráfego de referência do Facebook caiu 43% e o do X (antigo Twitter) despencou 46% nos últimos três anos. A era do “link na bio” ou do post com manchete acabou.
Perdeu as duas primeiras partes da nossa análise sobre o Relatório Reuters? Leia a primeira aqui e a segunda aqui.
O Vídeo em destaque: vertical e na sala de estar
Diante disso, os executivos de mídia estão reordenando suas prioridades com uma agressividade nunca vista. A plataforma número um para 2026 é o YouTube (+74 pontos de prioridade), seguida pelo TikTok (+56). O texto, antes soberano, está sendo preterido em favor do vídeo (+79 de intenção de foco) e áudio (+71).
E não pense que o vídeo vertical (o formato “Stories/Reels”) é apenas para dancinhas no celular. A tendência agora é a invasão da sala de estar. O YouTube está se tornando a nova televisão, com o consumo em Smart TVs explodindo entre todas as faixas etárias. Em resposta, jornais sisudos como o The New York Times e a BBC (veja o vídeo abaixo) estão integrando vídeos verticais diretamente em seus próprios aplicativos e sites, criando abas de “Assistir” para reter o usuário que se acostumou a deslizar o dedo.
O dilema dos criadores: inimigos ou modelos?
Mas a “video-ficação” traz um desafio ainda maior do que a tecnologia: o talento. A ascensão da Creator Economy (Economia dos Criadores) borrou a linha entre quem é jornalista e quem é influenciador.
Os dados são alarmantes para os gestores de RH das redações: 70% dos executivos estão preocupados com a competição de criadores independentes pela atenção do público, e 39% temem perder seus melhores talentos para o ecossistema creator.
O medo é justificado. O relatório cita o caso de Dave Jorgenson, o “cara do TikTok” do Washington Post. Após anos construindo uma audiência massiva para o jornal, ele saiu para fundar sua própria empresa. O resultado? As visualizações do canal do Post despencaram quase instantaneamente, sendo ultrapassadas pelo novo canal pessoal de Jorgenson.
A lição é dura: na era do vídeo, a audiência segue a pessoa, não o logotipo da empresa.
A resposta: o jornalista-influencer
Para não serem engolidos, os publishers decidiram jogar o jogo. Uma fatia impressionante de 76% dos líderes de mídia afirma que, em 2026, vai incentivar seus jornalistas a “se comportarem mais como criadores”.
Isso significa o fim das assinaturas (créditos) discretas, nas matérias. O New York Times está colocando o rosto de seus correspondentes na home page; a Wired está treinando seus redatores para serem “personalidades de plataforma”. Grandes marcas estão indo além: a CNN está lançando o “CNN Creators”, com um estúdio dedicado em Doha focado em cultura e tecnologia para o público jovem, e o Daily Mail criou a unidade “DMG New Media”, com 60 criadores produzindo conteúdo nativo para redes sociais.
O que fazer? Estratégias para a Era da Personalidade
Se o vídeo é o rei e o criador é a rainha, como sua empresa de mídia deve se posicionar para não perder a relevância (e os talentos)? Baseado no relatório, aqui estão as ações críticas:
INSIGHT 1. Abrace a verticalização proprietária
Não entregue todo o seu vídeo para o TikTok ou Instagram. Siga o exemplo do New York Times e crie experiências de vídeo vertical dentro do seu próprio aplicativo e site. O formato “swipe” (deslizar) já é o padrão de consumo de informação. Se o seu app parece um jornal impresso digitalizado, ele parece velho.
INSIGHT 2. Crie um “contrato de estrela” para seus jornalistas
O risco de brain drain (fuga de cérebros) é real. Se o seu jornalista constrói uma audiência de milhões nas redes sociais usando a sua marca, ele logo perceberá que pode monetizar isso sozinho. Você precisa se antecipar. Crie modelos de Revenue Share (partilha de receita) ou liberdade editorial para que eles tenham seus próprios “canais” dentro da sua marca. A Vox Media e o Washington Post (com o projeto Ripple) já estão testando modelos onde o talento ganha diretamente pelo sucesso do seu conteúdo.
INSIGHT 3. Monte um estúdio, não apenas uma redação
A estrutura física e mental da redação precisa mudar. O Daily Mail e a CNN estão investindo em estúdios de criadores e unidades de produção ágeis. Sua equipe precisa de designers de movimento, editores de vídeo vertical e roteiristas de áudio tanto quanto precisa de repórteres de texto. A estética “lo-fi” (menos produzida e mais autêntica) dos criadores funciona melhor que o estúdio de TV tradicional engravatado.
INSIGHT 4. Personalidade como Estratégia de Confiança
Em um mar de conteúdo gerado por IA (o AI slop da parte anterior), o rosto humano é o selo de verificação definitivo. Incentive seus jornalistas a aparecerem, a falarem na primeira pessoa e a mostrarem os bastidores da apuração. A “voz institucional” neutra gera menos confiança hoje do que a voz autêntica de um especialista apaixonado pelo assunto.
INSIGHT 5. Parceria em vez de competição
Você não precisa construir tudo do zero. 50% dos publishers planejam fazer parcerias com criadores já estabelecidos para distribuir conteúdo. Contrate YouTubers ou Podcasters para liderar verticais da sua revista ou jornal. O Independent, no Reino Unido, contratou um YouTuber de futebol como diretor criativo. Traga a audiência deles para dentro da sua credibilidade.
Gostou do conteúdo? Assine a Newsletter Aner e tenha acesso à melhor curadoria de notícias do mercado editorial jornalístico. Clique e entre na nossa comunidade do WhatsApp!
O relatório completo do Journalism and Technology Trends and Predictions 2026 pode ser baixado clicando aqui.
Você também pode gostar destas matérias sobre insights e tendências para 2026
Mídia 2026: O “Plot Twist” onde a Forbes vira Rádio e a Jovem Pan invade a TV
Otimização para IA: como convencer o robô a citar seu site?
Tendências de mídia no relatório Dentsu Creative 2026: ‘slow content’ e a curadoria humana
Tendências na Europa: os destaques de Lulu Skantze sobre o Trend Union Webinar
*Usamos o Notebook LM para a divisão estrutural e construção de parte do texto deste material.


