Future Newsrooms Study 2026: Enfim, o que há de errado com as redações?

Future Newsrooms Study 2026: Enfim, o que há de errado com as redações?

27 de julho de 2026
Última atualização: 27 de julho de 2026
6min
Future Newsroom Study 2026 redações jornalismo publishing
Márcia Miranda

Uma pesquisa global abrangente, conduzida pela FT Strategies e WAN-IFRA, analisou a transformação das redações diante das pressões tecnológicas e de mercado, em 2026. O Future Newsrooms Study 2026 ouviu 448 participantes em 86 países, revelando lacunas críticas em estratégia, confiança do público, capacidades operacionais e competências profissionais. Infelizmente, apenas 6% deles são da América Latina. Ainda assim, é possível aproveitar muitos insights sobre o que pode estar errado nas redações.

O que você vai ver aqui:

  • Organizações bem-sucedidas estão desistindo de buscar por alcance massivo e investindo no processo de engajamento profundo e na construção de comunidades de nicho.
  • Embora o uso da inteligência artificial cresça como ferramenta de eficiência, a resistência cultural e a falta de treinamento formal ainda impedem uma evolução plena.
  • As dicas do relatório para que líderes editoriais alinhem suas prioridades diárias à sustentabilidade do negócio em uma era de abundância de conteúdo.

Setor sofre com quatro deficiências centrais: estratégia, confiança da audiência, capacidade tecnológica e habilidades

O diagnóstico é claro: estamos no meio de uma transformação estrutural brutal. Qualquer redação que continue operando com o velho manual de focar apenas em alcance e notícias de última hora está, ativamente, gerenciando seu próprio declínio.

O relatório analisou respostas de profissionais do mercado editorial publishing da Europa (43%), América do Norte (19%), Oriente Médio e África (16%), Sul e Sudeste da Ásia (11%), América Latina (6%) e Ásia e Oceania (5%). A maioria das empresas tem menos de 25 funcionários (37%), embora contem com alcance nacional (52%).

Engajamento é a nova moeda, mas a execução ainda é do passado

O engajamento da audiência é, hoje, a meta número um para 2026, sendo visto como a principal alavanca para a sustentabilidade financeira, superando o simples alcance de massa. Ironicamente, o discurso não bate com a prática: 64% das redações ainda pautam e desenvolvem suas histórias pensando primeiro em um canal específico (site, impresso, TV) e apenas 21% começam a apuração com um grupo de audiência ou necessidade do usuário em mente.

O abismo entre a estratégia e o “chão de redação”

Ter um documento de estratégia não significa muito se ele não guia a pauta diária. Surpreendentemente, 25% das redações ainda operam de forma puramente reativa, baseadas no instinto do editor e nos eventos do dia. Apenas 32% possuem um alinhamento estruturado onde a estratégia realmente dita as escolhas de cobertura. O dado mais revelador? Redações que têm a disciplina de descontinuar iniciativas que não dão resultado têm quase o dobro de chance de verem seus orçamentos editoriais crescerem.

A ilusão da IA (foco em tempo, não em jornalismo)

A Inteligência Artificial está sendo adotada de forma muito conservadora, focada quase que inteiramente em eficiência. O principal indicador de sucesso para 42% das redações é o “tempo economizado”. Ferramentas de IA são mais usadas para tarefas de baixo risco, como transcrição e tradução (78%).

A resistência à IA não é tecnológica, é humana

Os três maiores obstáculos para a adoção da IA não são a falta de infraestrutura, mas problemas de gestão de pessoas: falta de habilidades (61%), resistência cultural e ceticismo (52%) e falta de clareza sobre casos de uso (45%). Para inovar de verdade, as redações precisam integrar a tecnologia ao ofício, usando a IA para apurações mais profundas que antes eram impossíveis de se fazer.

Você tem, agora uma oportunidade de mostrar como essa transição está acontecendo dentro da sua redação. Participe da pesquisa que vai mapear os desafios que estão sendo enfrentados pelos publishers brasileiros! O Levantamento sobre os desafios de tecnologia e inovação para publishers no Brasil pode ser respondido online e dura apenas 8 minutos.

A rotina impede a construção de confiança

Confiança não vem mais apenas do peso institucional da marca, mas da construção de relacionamentos. O problema é que os repórteres gastam 38% da semana com tarefas de produção e míseros 11% no trabalho pós-publicação (como engajamento com a comunidade). Sem tempo para interagir com o público, as redações falham em construir vínculos de lealdade.

Formatos do futuro

Em uma era de abundância de conteúdo gerado por IA, o diferencial será a originalidade. Os formatos de “Explainers” (jornalismo explicativo) são a prioridade de narrativa para 74% dos líderes. Nas plataformas, o estudo destaca o mesmo já mostrado pelo Reuters Digital News Report: os vídeos curtos são a prioridade absoluta de formato para 79% das redações, sinalizando a segunda grande “virada para o vídeo” nesta indústria.

A crise de capacitação e a síndrome dos “News Creators”

Espera-se que os repórteres atuem cada vez mais como news creators na frente das câmeras, mas o suporte é pífio. Entre as redações que tentam transformar seus jornalistas em “criadores”, 68% oferecem pouco ou nenhum treinamento estruturado de vídeo. Em um cenário macro, 61% das redações não possuem programas formais de capacitação para novas habilidades.

Promoções valorizam “Soft Skills” em vez do furo de reportagem

Na hora de promover um jornalista a um cargo de liderança, a habilidade de conseguir furos de reportagem (34%) ou produtividade (25%) ficaram para trás. O atributo mais valorizado hoje, com 69% da preferência, é a capacidade de liderança e colaboração, refletindo a necessidade de integrar diferentes setores (dados, produto, comercial) no fazer jornalístico.

O jornalismo diferenciado está se tornando mais visual, explicativo e voltado para a comunidade

A transição que as redações enfrentam não é apenas sobre quais ferramentas tecnológicas comprar. O verdadeiro desafio jornalístico para os próximos anos está em reestruturar as redações para criar nichos de especialistas, estreitar o relacionamento real com o público e alinhar, todos os dias, a pauta com o modelo de negócios da empresa. Você concorda?

Para ler o Future Newsrooms Study 2026 preencha o cadastro na página da FT Strategies.com.

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.