Pesquisa Alafiá Lab: não existe um modelo único de consumo de notícias no Brasil

Não existe um modelo único de consumo de notícias no Brasil. A conclusão é da pesquisa “Caminhos da Informação no Brasil: cidades e regiões”, realizada pelo Aláfia Lab em parceria com o Instituto IDEIA. O estudo indica que empresas e publishers que aplicam estratégias nacionais centralizadas e focadas exclusivamente nos hábitos de grandes capitais estão deixando de atingir a maior parte do público brasileiro. Analisamos os principais insights estratégicos extraídos do estudo e detalhamos o que as informações significam e de que forma os publishers podem utilizá-las para otimizar seus negócios, distribuição de conteúdo e engajamento.
Você vai ler aqui:
- O fim do “one-size-fits-all” nacional: O consumo informativo é extremamente fragmentado regionalmente.
- O abismo “capital x interior” e o consumo de notícias: Nas capitais brasileiras, a dieta informativa é mais institucionalizada, concentrando-se em portais tradicionais, televisão e redes associadas a circuitos tradicionais de opinião pública.
- WhatsApp e as redes de proximidade: A forma como a informação circula no WhatsApp muda dependendo do território.
- A guerra das plataformas de vídeo: YouTube, TikTok e Kwai: A penetração das redes de vídeo e o tipo de uso variam amplamente.
- Humor, Religião e Política: O jornalismo purista compete diretamente com outras esferas de interesse que pautam o dia a dia do brasileiro.
O que é a pesquisa “Caminhos da Informação no Brasil: cidades e regiões”?
O relatório faz parte do projeto Desigualdades Informativas, uma série histórica que vem sendo desenvolvida pelo Aláfia Lab (um laboratório de pesquisa e inovação sediado em Salvador, Bahia) desde 2023. Originalmente, o projeto nasceu com a missão de mapear os percursos informacionais dos brasileiros e investigar como fatores sociodemográficos — tais como gênero, renda, idade, raça, posição política, religião e escolaridade — impactam as formas de acesso, consumo e circulação de notícias
Embora o projeto já mapeasse hábitos gerais, a edição especial de 2026 foi realizada para direcionar o foco, pela primeira vez, às diferenças regionais e territoriais que estruturam a experiência de consumo de notícias no Brasil, além de explorar detalhadamente os contrastes de comportamento entre capitais e interior.
“Os hábitos de informação nesses ambientes são muito diversos e a pesquisa busca preencher uma lacuna de falta de dados a respeito das tendências gerais sobre os formatos mais utilizados, as plataformas mais consumidas, as fontes mais recorrentes, dentre outros. Sendo assim, a pesquisa joga luz sobre as escolhas e as preferências de pessoas em diferentes condições sociais e culturais e de que modo as desigualdades podem explicar determinados hábitos informacionais“, diz a apresentação do trabalho.
Veja alguns dos insights mais relevantes para o segmento publishing editorial jornalístico
1. Descentralização Radical: O Fim do “One-Size-Fits-All” Nacional
- O que a pesquisa mostra: Enquanto o Nordeste lidera o consumo de informações por redes sociais (57,8%), no Norte o destaque absoluto é o uso de aplicativos de mensagens para se informar (33,9%). Já o Sul apresenta um cenário de equilíbrio único, distribuído de forma equilibrada entre sites e portais de notícias (46,2%), televisão (46,2%) e redes sociais (45,8%).
- Como os publishers devem agir:
- Customização regional de canais: Veículos de alcance nacional não podem tratar todas as audiências com o mesmo peso de canal. No Sul, uma estratégia ancorada em um portal de notícias tradicional e estruturado ainda detém forte centralidade. Para o Norte e Nordeste, no entanto, a presença e a linguagem da marca jornalística precisam ser prioritariamente voltadas para redes sociais e mensagens móveis.
- Comercialização segmentada: Utilize esses dados para oferecer a anunciantes pacotes publicitários hiper-regionalizados, adaptando os formatos comerciais ao canal predileto de cada região (ex: branded content interativo no Sul, campanhas de patrocínio focadas em mensageria no Norte).
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2. O Abismo “Capital x Interior” e o Consumo de Notícias
- O que a pesquisa mostra: O X (antigo Twitter), por exemplo, é quase duas vezes mais utilizado nas capitais do que no interior. Por outro lado, no interior do país, a informação circula muito mais por redes sociais, aplicativos de mensagens (WhatsApp e TikTok) e é profundamente conectada a perfis de humor e entretenimento.
- Como os publishers devem agir:
- Linguagem e formatos híbridos (Infotainment): Veículos locais ou publishers que queiram expandir sua base para fora das regiões metropolitanas devem adotar um tom menos formal. É necessário produzir conteúdos informativos que se conectem à sociabilidade diária dos leitores do interior, misturando a notícia factual com entretenimento leve e humor cotidiano.
- Distribuição descentralizada: Publishers focados no interior devem priorizar a distribuição ativa via WhatsApp e redes sociais em vez de despender esforços tentando atrair o leitor para a homepage de um portal estático
3. WhatsApp e as redes de proximidade
- O que a pesquisa mostra: No Norte, 37,1% se informam prioritariamente de forma direta por conversas individuais de WhatsApp, enquanto no Nordeste o recebimento de informações se apoia massivamente em laços sociais estreitos, com 74,8% recebendo de amigos e 57% de conhecidos. No Centro-Oeste, os grupos de WhatsApp têm força única no país (9,1% se informam apenas ou prioritariamente através de grupos).
- Como os publishers devem agir:
- Estratégias de “compartilhabilidade” (shareability): No Nordeste e no Centro-Oeste, o conteúdo precisa ser desenhado para facilitar a conversação informal. Isso significa criar títulos curtos, imagens explicativas e infográficos otimizados que as pessoas sintam o desejo de repassar em seus grupos de família, amigos ou redes locais.
- Foco no direct-to-consumer (D2C) via mensageria: Para o Norte, onde as trocas individuais prevalecem, os editores devem investir em listas de transmissão personalizadas ou canais de curadoria direta via WhatsApp, atuando quase como um curador pessoal de notícias para o leitor.
4. A guerra das plataformas de vídeo: YouTube, TikTok e Kwai
- O que a pesquisa mostra: O Sul lidera nacionalmente o consumo de informações no YouTube (65%), com foco especial em influenciadores e celebridades (49,3%). O Centro-Oeste lidera o uso do TikTok como plataforma informativa (50%), ao passo que o Nordeste registra o maior índice nacional de uso do Kwai (27,9%). No Nordeste, 42% dos usuários de TikTok seguem perfis de meios de comunicação, índice consideravelmente superior à média nacional de 28,6%.
- Como os publishers devem agir:
- Direcionamento de produção audiovisual: Para o público do Centro-Oeste e Nordeste, o investimento em vídeos verticais curtos e dinâmicos para TikTok e Kwai é indispensável. No Nordeste, especificamente, as empresas jornalísticas devem aproveitar a alta abertura que o público tem para seguir veículos e jornalistas oficiais na plataforma. No Sul, o esforço deve focar em vídeos mais longos de análise com âncoras fortes no YouTube.
- Estratégias baseadas em criadores (creator-led journalism): O forte peso de influenciadores digitais no Sul e Nordeste demonstra que marcas de mídia frias precisam de rostos. Humanizar as redações colocando repórteres e editores para apresentar e comentar as notícias pode aumentar drasticamente a confiança e a audiência.
5. Hibridismo Temático: Humor, Religião e Política
- O que a pesquisa mostra: No Instagram do Centro-Oeste, perfis religiosos (48,8%) e de humor (58,5%) lideram o interesse de quem segue contas informativas, sendo que a religião também lidera o consumo no YouTube na região com 44,7%. No Norte, o consumo no YouTube é fortemente estruturado por canais de humor (47,4%), enquanto no Sudeste e Nordeste os perfis de fofocas, entretenimento e influenciadores digitais (como a Choquei) competem de forma direta com o jornalismo tradicional.
- Como os publishers devem agir:
- Diversificação da pauta editorial: Publishers não podem tratar religião, humor ou comportamento de nicho apenas como pautas secundárias. Unir temas que envolvem fé, comunidade e cultura pop local à cobertura jornalística analítica ajuda a gerar conexões genuínas com públicos do Centro-Oeste e do Norte.
- Colaboração e parcerias estratégicas: Em vez de combater perfis de entretenimento, publishers tradicionais podem estruturar parcerias de distribuição. Seu veículo de notícias pode atuar fornecendo checagem de fatos ou conteúdo de qualidade para influenciadores e páginas locais de humor que já possuem tráfego orgânico estabelecido, mas precisam de autoridade informativa.
A pesquisa completa do Alafiá está disponível aqui.
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