Pesquisa Alafiá Lab: não existe um modelo único de consumo de notícias no Brasil

Pesquisa Alafiá Lab: não existe um modelo único de consumo de notícias no Brasil

8 de setembro de 2026
Última atualização: 8 de setembro de 2026
8min
Pesquisa consumo de notícias nas regiões do Brasil. Alafiá Lab caminhos da informação Hábitos informacionais dos brasileiros por região
Márcia Miranda

Não existe um modelo único de consumo de notícias no Brasil. A conclusão é da pesquisa “Caminhos da Informação no Brasil: cidades e regiões”, realizada pelo Aláfia Lab em parceria com o Instituto IDEIA. O estudo indica que empresas e publishers que aplicam estratégias nacionais centralizadas e focadas exclusivamente nos hábitos de grandes capitais estão deixando de atingir a maior parte do público brasileiro. Analisamos os principais insights estratégicos extraídos do estudo e detalhamos o que as informações significam e de que forma os publishers podem utilizá-las para otimizar seus negócios, distribuição de conteúdo e engajamento.

Você vai ler aqui:

  • O fim do “one-size-fits-all” nacional: O consumo informativo é extremamente fragmentado regionalmente.
  • O abismo “capital x interior” e o consumo de notícias: Nas capitais brasileiras, a dieta informativa é mais institucionalizada, concentrando-se em portais tradicionais, televisão e redes associadas a circuitos tradicionais de opinião pública.
  • WhatsApp e as redes de proximidade: A forma como a informação circula no WhatsApp muda dependendo do território.
  • A guerra das plataformas de vídeo: YouTube, TikTok e Kwai: A penetração das redes de vídeo e o tipo de uso variam amplamente.
  • Humor, Religião e Política: O jornalismo purista compete diretamente com outras esferas de interesse que pautam o dia a dia do brasileiro.

O que é a pesquisa “Caminhos da Informação no Brasil: cidades e regiões”?

O relatório faz parte do projeto Desigualdades Informativas, uma série histórica que vem sendo desenvolvida pelo Aláfia Lab (um laboratório de pesquisa e inovação sediado em Salvador, Bahia) desde 2023. Originalmente, o projeto nasceu com a missão de mapear os percursos informacionais dos brasileiros e investigar como fatores sociodemográficos — tais como gênero, renda, idade, raça, posição política, religião e escolaridade — impactam as formas de acesso, consumo e circulação de notícias

Embora o projeto já mapeasse hábitos gerais, a edição especial de 2026 foi realizada para direcionar o foco, pela primeira vez, às diferenças regionais e territoriais que estruturam a experiência de consumo de notícias no Brasil, além de explorar detalhadamente os contrastes de comportamento entre capitais e interior.

Os hábitos de informação nesses ambientes são muito diversos e a pesquisa busca preencher uma lacuna de falta de dados a respeito das tendências gerais sobre os formatos mais utilizados, as plataformas mais consumidas, as fontes mais recorrentes, dentre outros. Sendo assim, a pesquisa joga luz sobre as escolhas e as preferências de pessoas em diferentes condições sociais e culturais e de que modo as desigualdades podem explicar determinados hábitos informacionais“, diz a apresentação do trabalho.

Veja alguns dos insights mais relevantes para o segmento publishing editorial jornalístico

1. Descentralização Radical: O Fim do “One-Size-Fits-All” Nacional

  • O que a pesquisa mostra: Enquanto o Nordeste lidera o consumo de informações por redes sociais (57,8%), no Norte o destaque absoluto é o uso de aplicativos de mensagens para se informar (33,9%). Já o Sul apresenta um cenário de equilíbrio único, distribuído de forma equilibrada entre sites e portais de notícias (46,2%), televisão (46,2%) e redes sociais (45,8%).
  • Como os publishers devem agir:
    • Customização regional de canais: Veículos de alcance nacional não podem tratar todas as audiências com o mesmo peso de canal. No Sul, uma estratégia ancorada em um portal de notícias tradicional e estruturado ainda detém forte centralidade. Para o Norte e Nordeste, no entanto, a presença e a linguagem da marca jornalística precisam ser prioritariamente voltadas para redes sociais e mensagens móveis.
    • Comercialização segmentada: Utilize esses dados para oferecer a anunciantes pacotes publicitários hiper-regionalizados, adaptando os formatos comerciais ao canal predileto de cada região (ex: branded content interativo no Sul, campanhas de patrocínio focadas em mensageria no Norte).

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2. O Abismo “Capital x Interior” e o Consumo de Notícias

  • O que a pesquisa mostra: O X (antigo Twitter), por exemplo, é quase duas vezes mais utilizado nas capitais do que no interior. Por outro lado, no interior do país, a informação circula muito mais por redes sociais, aplicativos de mensagens (WhatsApp e TikTok) e é profundamente conectada a perfis de humor e entretenimento.
  • Como os publishers devem agir:
    • Linguagem e formatos híbridos (Infotainment): Veículos locais ou publishers que queiram expandir sua base para fora das regiões metropolitanas devem adotar um tom menos formal. É necessário produzir conteúdos informativos que se conectem à sociabilidade diária dos leitores do interior, misturando a notícia factual com entretenimento leve e humor cotidiano.
    • Distribuição descentralizada: Publishers focados no interior devem priorizar a distribuição ativa via WhatsApp e redes sociais em vez de despender esforços tentando atrair o leitor para a homepage de um portal estático

3. WhatsApp e as redes de proximidade

  • O que a pesquisa mostra: No Norte, 37,1% se informam prioritariamente de forma direta por conversas individuais de WhatsApp, enquanto no Nordeste o recebimento de informações se apoia massivamente em laços sociais estreitos, com 74,8% recebendo de amigos e 57% de conhecidos. No Centro-Oeste, os grupos de WhatsApp têm força única no país (9,1% se informam apenas ou prioritariamente através de grupos).
  • Como os publishers devem agir:
    • Estratégias de “compartilhabilidade” (shareability): No Nordeste e no Centro-Oeste, o conteúdo precisa ser desenhado para facilitar a conversação informal. Isso significa criar títulos curtos, imagens explicativas e infográficos otimizados que as pessoas sintam o desejo de repassar em seus grupos de família, amigos ou redes locais.
    • Foco no direct-to-consumer (D2C) via mensageria: Para o Norte, onde as trocas individuais prevalecem, os editores devem investir em listas de transmissão personalizadas ou canais de curadoria direta via WhatsApp, atuando quase como um curador pessoal de notícias para o leitor.

4. A guerra das plataformas de vídeo: YouTube, TikTok e Kwai

  • O que a pesquisa mostra: O Sul lidera nacionalmente o consumo de informações no YouTube (65%), com foco especial em influenciadores e celebridades (49,3%). O Centro-Oeste lidera o uso do TikTok como plataforma informativa (50%), ao passo que o Nordeste registra o maior índice nacional de uso do Kwai (27,9%). No Nordeste, 42% dos usuários de TikTok seguem perfis de meios de comunicação, índice consideravelmente superior à média nacional de 28,6%.
  • Como os publishers devem agir:
    • Direcionamento de produção audiovisual: Para o público do Centro-Oeste e Nordeste, o investimento em vídeos verticais curtos e dinâmicos para TikTok e Kwai é indispensável. No Nordeste, especificamente, as empresas jornalísticas devem aproveitar a alta abertura que o público tem para seguir veículos e jornalistas oficiais na plataforma. No Sul, o esforço deve focar em vídeos mais longos de análise com âncoras fortes no YouTube.
    • Estratégias baseadas em criadores (creator-led journalism): O forte peso de influenciadores digitais no Sul e Nordeste demonstra que marcas de mídia frias precisam de rostos. Humanizar as redações colocando repórteres e editores para apresentar e comentar as notícias pode aumentar drasticamente a confiança e a audiência.

5. Hibridismo Temático: Humor, Religião e Política

  • O que a pesquisa mostra: No Instagram do Centro-Oeste, perfis religiosos (48,8%) e de humor (58,5%) lideram o interesse de quem segue contas informativas, sendo que a religião também lidera o consumo no YouTube na região com 44,7%. No Norte, o consumo no YouTube é fortemente estruturado por canais de humor (47,4%), enquanto no Sudeste e Nordeste os perfis de fofocas, entretenimento e influenciadores digitais (como a Choquei) competem de forma direta com o jornalismo tradicional.
  • Como os publishers devem agir:
    • Diversificação da pauta editorial: Publishers não podem tratar religião, humor ou comportamento de nicho apenas como pautas secundárias. Unir temas que envolvem fé, comunidade e cultura pop local à cobertura jornalística analítica ajuda a gerar conexões genuínas com públicos do Centro-Oeste e do Norte.
    • Colaboração e parcerias estratégicas: Em vez de combater perfis de entretenimento, publishers tradicionais podem estruturar parcerias de distribuição. Seu veículo de notícias pode atuar fornecendo checagem de fatos ou conteúdo de qualidade para influenciadores e páginas locais de humor que já possuem tráfego orgânico estabelecido, mas precisam de autoridade informativa.

A pesquisa completa do Alafiá está disponível aqui.

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Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Instituto Innovare e divisões internas da TV Globo.