Jornalismo custa caro. A falta dele custa muito mais

Jornalismo custa caro. A falta dele custa muito mais

28 de setembro de 2026
Última atualização: 28 de setembro de 2026
4min
Regina Bucco Dia Mundial do Jornalismo
Regina Bucco

O jornalismo profissional ajuda sociedades a compreender fatos, fiscalizar o poder, conhecer direitos e participar da vida pública. Esse trabalho acontece todos os dias, em pequenas comunidades e grandes centros, por meio de apuração, reportagem, edição, fotografia, dados, investigação e análise. Seu valor aparece no fortalecimento da democracia, na defesa dos direitos humanos, na busca por justiça social e na construção de caminhos para um desenvolvimento mais sustentável. Informação qualificada amplia o conhecimento e abre espaço para o diálogo, condição básica para sociedades menos expostas à intolerância, à manipulação e aos conflitos.

Existe um custo alto por trás desse trabalho. Bom jornalismo exige repórteres, editores, fotógrafos, profissionais de dados, tecnologia, segurança digital, equipes jurídicas e estruturas capazes de sustentar investigações durante semanas ou meses. Uma reportagem aprofundada pode exigir viagens, documentos, entrevistas e muitas horas de verificação. A informação confiável não nasce pronta. Alguém precisa procurá-la, confrontá-la, contextualizá-la e assumir responsabilidade pelo resultado publicado.

Esse custo ganha outra dimensão quando comparado às prioridades globais. Países gastam trilhões de dólares todos os anos com defesa, armamentos e guerras. Uma parcela pequena desses recursos seria suficiente para fortalecer redes jornalísticas, ampliar a cobertura local, financiar reportagens de interesse público e assegurar informação profissional para milhões de pessoas. A comparação apenas mostra como o investimento em informação confiável é pequeno diante de outras despesas e como seus efeitos sociais podem ser amplos.

Informação, conhecimento e diálogo também formam uma infraestrutura de segurança social. O jornalismo pode revelar tensões, dar voz a grupos esquecidos, combater rumores, esclarecer diferenças e oferecer fatos comuns para o debate público. Esses elementos não eliminam conflitos, mas ajudam a criar ambientes mais propícios ao entendimento e menos vulneráveis à manipulação.

A democracia depende desse patrimônio cotidiano.

Jornalistas acompanham governos, empresas, tribunais, escolas, hospitais, parlamentos e comunidades. Reportagens revelam violações de direitos, desperdício de dinheiro público, danos ambientais, desigualdades e problemas ignorados durante anos. Outras mostram soluções e experiências capazes de inspirar mudanças. A UNESCO reconhece o jornalismo independente como um bem público, definição que ajuda a dimensionar sua importância para a vida coletiva.

O desenvolvimento sustentável passa pelo mesmo caminho. Uma população precisa conhecer riscos ambientais, investimentos públicos, o funcionamento das instituições e os impactos das decisões econômicas sobre sua vida. Cidadãos informados conseguem cobrar políticas melhores, participar das escolhas coletivas e defender seus direitos com mais instrumentos.

Nesse ambiente, as revistas ocupam uma posição singular.

As revistas continuam sendo, no meio digital, o jornalismo aprofundado de que tanto precisamos. Grandes reportagens e coberturas especializadas têm papel decisivo nos rumos da sociedade. É preciso garantir a sustentabilidade desse tipo de jornalismo também.

A transformação tecnológica mudou formatos, plataformas e hábitos de consumo, mas não eliminou a necessidade de profundidade. O excesso de conteúdo tornou contexto, especialização e análise ainda mais valiosos.

A inteligência artificial reforça esse desafio. Máquinas podem organizar, resumir e distribuir grandes volumes de conteúdo, mas toda informação original precisa nascer em algum lugar. Um algoritmo consegue resumir uma investigação publicada. Ele não consegue resumir uma investigação inexistente porque nenhuma redação teve recursos para enviar um repórter, buscar documentos, ouvir fontes e descobrir os fatos. A sustentabilidade econômica do jornalismo passou a ser também uma questão de qualidade do próprio ecossistema digital.

O Dia Mundial do Jornalismo, celebrado em 28 de setembro, é um momento para conversar com as pessoas de forma clara sobre como funciona o jornalismo, por que ele é tão importante e por que precisa de apoio. Precisamos mostrar o trabalho por trás da informação confiável, da apuração à edição, da investigação à correção dos erros. Também precisamos falar de liberdade de imprensa, sustentabilidade, pluralidade, educação midiática, inovação e remuneração justa pelo conteúdo produzido. Jornalismo de qualidade custa caro. O preço de uma sociedade sem informação confiável, fiscalização, conhecimento compartilhado e espaços para diálogo pode ser muito maior. Apoiar o jornalismo significa preservar essas condições e garantir, na prática, seu papel como bem público, como reconhece a UNESCO.

Regina Bucco
Editor
Diretora executiva da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner). Pensadora independente, adepta da liberdade, maratonista. Ama escrever e usar palavras que se rebelam no papel.