Design do vício, bets e IA: como o jornalismo pode enfrentar a economia da atenção sem perder a ética

Design do vício, bets e IA: como o jornalismo pode enfrentar a economia da atenção sem perder a ética

9 de outubro de 2026
Última atualização: 13 de outubro de 2026
4min
Eliana Loureiro design de vício jornalismo bets IA
Márcia Miranda

Feed infinito e notificações intrusivas. As plataformas digitais disputam cada segundo do tempo e da consciência dos leitores. Neste cenário, como o mercado editorial jornalístico pode enfrentar o desafio de reter audiência sem recorrer aos gatilhos tóxicos que dominam a internet? Esse foi o tema do Café com Aner que recebeu a pesquisadora, professora e doutora em Ciências Humanas e Sociais com orientação em neurociência pela UFABC, Eliana Loureiro.

Eliana falou sobre sua tese de doutorado “A Arquitetura da Captura: do design do vício à soberania cognitiva”. Ela compartilhou com jornalistas, editores e publishers um raio-X detalhado das estratégias de User Experience (UX) manipulativo utilizadas por Big Techs como a Meta, plataformas de apostas (bets) e interfaces de Inteligência Artificial.

“Conhecer as técnicas de captura digital não nos torna imunes a elas. Todos nós somos impactados por mecanismos desenhados para burlar o nosso controle inibitório”, alertou Eliana Loureiro durante o encontro.

Os 28 padrões do design manipulativo

Durante cinco anos e meio de pesquisa focada no ecossistema de redes sociais, Eliana mapeou 28 tipos de design manipulativo, categorizados em seis grandes grupos de dark patterns. Essas técnicas vão desde o feed infinito e notificações intrusivas até a remoção deliberada de feedbacks visuais — como a dificuldade proposital em desativar rastreamentos de localização.

A pesquisadora entrevistou ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia, incluindo engenheiros de dados e designers da sede da Meta nos EUA. Um dos relatos mais marcantes comparou as equipes de desenvolvimento a um “pelotão de fuzilamento”, no qual a pulverização do trabalho faz com que nenhum profissional sinta responsabilidade individual sobre o vício gerado nos usuários.

Eliana resgatou o conceito da filósofa Hannah Arendt sobre a banalidade do mal para ilustrar como a indústria da tecnologia trata a retenção compulsiva de atenção como mero “cumprimento de metas”, maquiando o design viciante sob eufemismos mercadológicos como stickiness (adesão) e “redução de fricção.

Faça parte da Comunidade da Aner no WhatsApp! Receba a Newsletter Aner e informações essenciais para o segmento publishing editorial jornalístico. Clique e acesse.

Bets e inteligência artificial: os novos vetores de dependência

Se nas redes sociais o motor da retenção é a validação social, nas plataformas de apostas digitais (bets) a captura atinge sua potência máxima ao explorar os circuitos dopaminérgicos de incerteza, ganho e perda financeira. Para a pesquisadora, as bets representam uma crise de saúde pública grave por aplicarem o design manipulativo para induzir o endividamento e a compulsão.

Já no campo das Inteligências Artificiais Generativas, o risco reside na criação de laços de dependência psicológica. Eliana destacou que muitas LLMs são programadas com um modo “sycophant” (validar e concordar com o usuário por padrão), o que impede o contraditório e simula escuta empática para manter o engajamento contínuo.

No entanto, longe de defender posições alarmistas ou ludistas, a neurocientista propõe enxergar a IA como um “Sistema 3” cognitivo. Inspirando-se na teoria dos sistemas de raciocínio de Daniel Kahneman (Sistema 1 – rápido/intuitivo; Sistema 2 – lento/analítico), a IA pode funcionar como um parceiro de debate e expansão do repertório humano, desde que orientada por profissionais com bases intelectuais sólidas e capacidade crítica de checagem.

Seja um associado Aner! Clique aqui e envie seus dados para obter mais informações.

Como o jornalismo e os veículos leitores de revistas podem prosperar?

Eliana Loureiro e os editores presentes no Café com ANER debateram alternativas práticas para o mercado de comunicação neste cenário de vícios:

  1. Dizer não ao clickbait e focar na relevância: A apuração aprofundada e o bom jornalismo continuam sendo o principal diferencial humano insubstituível perante os textos insípidos gerados automaticamente.
  2. Adotar o design ético (ethical UX): Utilizar recursos de gamificação e arquitetura de informação para informar e engajar de forma positiva, respeitando a autonomia e o tempo do leitor.
  3. Defender a soberania cognitiva e os neurodireitos: Posicionar os veículos de imprensa na vanguarda do debate sobre integridade mental e privacidade de pensamento, pilares fundamentais da democracia.
  4. Repensar os modelos de negócio: Reconhecer que as novas gerações consomem informação através de dinâmicas nativas (newsletters, formatos curtos em redes sociais, áudio) e diversificar as fontes de receita por meio de estratégias multimodais.

“Precisamos aprender com as novas linguagens digitais sem replicar a exploração predatória de atenção. O futuro do jornalismo passa por ocupar esses espaços com responsabilidade e entregar valor real ao público”, concluiu a especialista.

Quer ver a íntegra deste debate?

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Instituto Innovare e divisões internas da TV Globo.