IA, desinformação e eleições: o jornalismo está preparado?

Com a ascensão da Inteligência Artificial (IA), o custo de produzir uma notícia falsa despencou, enquanto o custo da checagem disparou. Como o jornalismo profissional pode sobreviver e proteger a democracia neste cenário de desinformação? Este foi o tema do Café com Aner que contou com a participação de Sérgio Lüdtke, jornalista, editor-chefe do Projeto Comprova, secretário executivo da Abraji e presidente do Projor.
O Café com Aner é um encontro online semanal, realizado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), focado em publishers, editores e profissionais de mídia. Com mais de 130 edições, o evento gratuito discute ferramentas de tecnologia, monetização, questões jurídicas e tendências do jornalismo, geralmente às terças-feiras, às 15h, conduzido por Regina Bucco.
O fim das “pistas visuais” e o sequestro emocional
Até pouco tempo, a orientação para as redações era a de buscar imperfeições nas imagens geradas por IA, como o desfoque no fundo, assimetria nos olhos ou dedos sobrepostos e disformes. No entanto, a tecnologia evoluiu para um estágio de perfeição absoluta em um tempo muito curto.
Mais do que a perfeição técnica, Sérgio destacou que o grande perigo atual é o impacto emocional das imagens sintéticas. Elementos visuais chocantes são inseridos para provocar reações tão fortes que “sequestram a atenção” e anulam a capacidade crítica de quem consome a informação, impedindo que até os observadores mais atentos notem as imperfeições.
Agora, a principal recomendação para as redações é focar intensamente na análise de contexto. Os jornalistas devem investigar se a cena faz sentido, buscar imagens alternativas da mesma situação e cruzar dados. Ferramentas de detecção de IA existem, como o Sensity e o Gemini do Google, mas não dão conta de toda a amplitude do problema. O olhar investigativo do jornalista nunca foi tão relevante.
O “desalento informacional” e a nova estratégia de checagem
Um dos dados mais alarmantes discutidos no Café com Aner foi o fenômeno do desengajamento ou “desalento informacional”. Uma pesquisa revelou que 34% dos usuários de internet concordam que não vale a pena pesquisar se as informações que recebem são verdadeiras ou falsas, e 33% acham que não adianta checar porque isso não mudará a opinião alheia.
Diante desse cenário de exaustão, o Projeto Comprova mudou drasticamente a forma de fazer fact-checking. Para as nossas redações, as lições são valiosas:
- Abandono da repetição da mentira: O Comprova deixou de usar as antigas etiquetas de “falso” ou “enganoso” e passou a adotar apenas títulos afirmativos. Não se deve colocar o sujeito e o adjetivo da desinformação na mesma frase para não dar margem à viralização do erro.
- Foco no letramento midiático: Mais do que apenas desmentir, o objetivo agora é explicar como a desinformação foi construída. Identificam-se as táticas usadas pelos desinformadores e questiona-se a autoridade da fonte falsa, transformando o desmentido em uma peça de educação para o leitor.
Pontos de atenção para a cobertura eleitoral
Sérgio mapeou ameaças críticas que todo editor e repórter deve colocar no radar para os próximos ciclos eleitorais:
- A bomba-relógio dos áudios no WhatsApp: O conteúdo sintético em áudio é mais barato de produzir, dificílimo de detectar e se espalha como pólvora. O período de 48 horas antes da abertura das urnas é o mais crítico, pois uma mentira em áudio pode causar um estrago irreparável antes que haja tempo hábil para a redação reagir e investigar.
- A crise de autenticidade: Políticos podem começar a taxar vídeos reais, que denunciem seus malfeitos, como “conteúdo sintético gerado por IA” para se eximirem de culpa. Também poderemos ver a redução proposital da qualidade de áudios e vídeos sintéticos para disfarçar que foram feitos por inteligência artificial, dando-lhes a aparência de gravações amadoras vazadas.
- Violência de gênero: A IA continuará sendo usada para ataques brutais, através de deepfakes pornográficas e difamações morais, focadas em silenciar mulheres candidatas e também repórteres. Mulheres negras, em especial, são alvos contínuos; no Comprova, protocolos específicos foram criados para proteger jornalistas de represálias misóginas e racistas.
- “Lavagem de notícias” e microdirecionamento: O uso de grandes bases de dados para bombardear eleitores com mensagens personalizadas, explorando suas vulnerabilidades psicológicas e crenças, será intenso. Além disso, agências estrangeiras podem tentar influenciar as eleições inserindo conteúdos não verificados que acabam sendo reproduzidos ingenuamente por veículos locais.
Perdeu o Café com Sérgio Lüdtke ou quer rever?
A falta de regulamentação sólida, o modelo de negócios das Big Techs – que lucram com a economia da atenção – e o avanço irrefreável dos algoritmos colocam a imprensa diante de um de seus maiores desafios históricos. Como disse um dos participantes do evento, a mentira é muito mais “sexy” e não tem limites criativos, enquanto nós, jornalistas, estamos rigorosamente limitados aos fatos.
Entender os bastidores de como a desinformação funciona hoje não é apenas uma questão de melhoria profissional, mas de sobrevivência do nosso modelo de negócios e da democracia.
Acesse agora o canal da Associação Nacional de Editores de Revistas no YouTube e assista na íntegra ao vídeo “IA e Desinformação nas Eleições 2026: Desafios e Estratégias de Combate | Café com Aner”. O debate continua aberto e a sua redação precisa estar na vanguarda dessa batalha!


