IA, desinformação e eleições: o jornalismo está preparado?

IA, desinformação e eleições: o jornalismo está preparado?

24 de abril de 2026
Última atualização: 27 de abril de 2026
5min
Sérgio Lüdtke fala sobre IA desinformação e eleições no Café com Aner
Márcia Miranda

Com a ascensão da Inteligência Artificial (IA), o custo de produzir uma notícia falsa despencou, enquanto o custo da checagem disparou. Como o jornalismo profissional pode sobreviver e proteger a democracia neste cenário de desinformação? Este foi o tema do Café com Aner que contou com a participação de Sérgio Lüdtke, jornalista, editor-chefe do Projeto Comprova, secretário executivo da Abraji e presidente do Projor.

O Café com Aner é um encontro online semanal, realizado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), focado em publishers, editores e profissionais de mídia. Com mais de 130 edições, o evento gratuito discute ferramentas de tecnologia, monetização, questões jurídicas e tendências do jornalismo, geralmente às terças-feiras, às 15h, conduzido por Regina Bucco.

O fim das “pistas visuais” e o sequestro emocional

Até pouco tempo, a orientação para as redações era a de buscar imperfeições nas imagens geradas por IA, como o desfoque no fundo, assimetria nos olhos ou dedos sobrepostos e disformes. No entanto, a tecnologia evoluiu para um estágio de perfeição absoluta em um tempo muito curto.

Mais do que a perfeição técnica, Sérgio destacou que o grande perigo atual é o impacto emocional das imagens sintéticas. Elementos visuais chocantes são inseridos para provocar reações tão fortes que “sequestram a atenção” e anulam a capacidade crítica de quem consome a informação, impedindo que até os observadores mais atentos notem as imperfeições.

Agora, a principal recomendação para as redações é focar intensamente na análise de contexto. Os jornalistas devem investigar se a cena faz sentido, buscar imagens alternativas da mesma situação e cruzar dados. Ferramentas de detecção de IA existem, como o Sensity e o Gemini do Google, mas não dão conta de toda a amplitude do problema. O olhar investigativo do jornalista nunca foi tão relevante.

O “desalento informacional” e a nova estratégia de checagem

Um dos dados mais alarmantes discutidos no Café com Aner foi o fenômeno do desengajamento ou “desalento informacional”. Uma pesquisa revelou que 34% dos usuários de internet concordam que não vale a pena pesquisar se as informações que recebem são verdadeiras ou falsas, e 33% acham que não adianta checar porque isso não mudará a opinião alheia.

Diante desse cenário de exaustão, o Projeto Comprova mudou drasticamente a forma de fazer fact-checking. Para as nossas redações, as lições são valiosas:

  • Abandono da repetição da mentira: O Comprova deixou de usar as antigas etiquetas de “falso” ou “enganoso” e passou a adotar apenas títulos afirmativos. Não se deve colocar o sujeito e o adjetivo da desinformação na mesma frase para não dar margem à viralização do erro.
  • Foco no letramento midiático: Mais do que apenas desmentir, o objetivo agora é explicar como a desinformação foi construída. Identificam-se as táticas usadas pelos desinformadores e questiona-se a autoridade da fonte falsa, transformando o desmentido em uma peça de educação para o leitor.

Pontos de atenção para a cobertura eleitoral

Sérgio mapeou ameaças críticas que todo editor e repórter deve colocar no radar para os próximos ciclos eleitorais:

  1. A bomba-relógio dos áudios no WhatsApp: O conteúdo sintético em áudio é mais barato de produzir, dificílimo de detectar e se espalha como pólvora. O período de 48 horas antes da abertura das urnas é o mais crítico, pois uma mentira em áudio pode causar um estrago irreparável antes que haja tempo hábil para a redação reagir e investigar.
  2. A crise de autenticidade: Políticos podem começar a taxar vídeos reais, que denunciem seus malfeitos, como “conteúdo sintético gerado por IA” para se eximirem de culpa. Também poderemos ver a redução proposital da qualidade de áudios e vídeos sintéticos para disfarçar que foram feitos por inteligência artificial, dando-lhes a aparência de gravações amadoras vazadas.
  3. Violência de gênero: A IA continuará sendo usada para ataques brutais, através de deepfakes pornográficas e difamações morais, focadas em silenciar mulheres candidatas e também repórteres. Mulheres negras, em especial, são alvos contínuos; no Comprova, protocolos específicos foram criados para proteger jornalistas de represálias misóginas e racistas.
  4. “Lavagem de notícias” e microdirecionamento: O uso de grandes bases de dados para bombardear eleitores com mensagens personalizadas, explorando suas vulnerabilidades psicológicas e crenças, será intenso. Além disso, agências estrangeiras podem tentar influenciar as eleições inserindo conteúdos não verificados que acabam sendo reproduzidos ingenuamente por veículos locais.

Perdeu o Café com Sérgio Lüdtke ou quer rever?

A falta de regulamentação sólida, o modelo de negócios das Big Techs – que lucram com a economia da atenção – e o avanço irrefreável dos algoritmos colocam a imprensa diante de um de seus maiores desafios históricos. Como disse um dos participantes do evento, a mentira é muito mais “sexy” e não tem limites criativos, enquanto nós, jornalistas, estamos rigorosamente limitados aos fatos.

Entender os bastidores de como a desinformação funciona hoje não é apenas uma questão de melhoria profissional, mas de sobrevivência do nosso modelo de negócios e da democracia.

Acesse agora o canal da Associação Nacional de Editores de Revistas no YouTube e assista na íntegra ao vídeo “IA e Desinformação nas Eleições 2026: Desafios e Estratégias de Combate | Café com Aner”. O debate continua aberto e a sua redação precisa estar na vanguarda dessa batalha!

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e Abap e divisões internas da TV Globo.