Como os dados podem salvar o jornalismo local do apagão comercial?

Como os dados podem salvar o jornalismo local do apagão comercial?

25 de setembro de 2026
Última atualização: 29 de setembro de 2026
6min
Domingos Secco dados para veículos locais e anunciantes plataforma nexos
Márcia Miranda

O mercado editorial brasileiro vive um dilema constante: como garantir a sustentabilidade financeira de veículos de imprensa — especialmente os regionais e de médio e pequeno porte — em um ecossistema digital dominado por algoritmos genéricos e métricas de audiência descoladas da realidade local? A resposta para esse desafio foi o tema do debate em mais uma edição do Café com Aner, encontro semanal promovido pela Associação Nacional de Editores de Revistas.

Convidado do programa, Domingo Secco, fundador da Allright e criador da plataforma Nexus, apresentou uma abordagem inovadora: a substituição da dependência exclusiva da inteligência artificial generativa pela Inteligência Territorial. O objetivo principal da iniciativa é conectar o inventário de mídias regionais aos grandes anunciantes nacionais de forma qualificada e com valor justo.

Confira abaixo os principais pontos da conversa, os diagnósticos sobre o mercado e as dicas práticas para publishers, editores e jornalistas transformarem dados locais em pauta editorial e receita.

O diagnóstico: o perigo dos “desertos comerciais”

Nos últimos anos, o ecossistema jornalístico vem se mobilizando para mapear e combater os chamados “desertos de notícias” — municípios que carecem de cobertura jornalística local independente. No entanto, Domingo Secco alertou para outro fenômeno igualmente grave e silencioso: o surgimento dos desertos comerciais.

Muitas vezes, mesmo onde existem portais e veículos regionais produzindo conteúdo relevante para sua comunidade, os compradores de mídia localizados nas grandes capitais não conseguem enxergar ou mensurar o valor desses territórios.

Esse apagão de visibilidade ocorre por três motivos estruturais:

  1. Restrição das agendas publicitárias: Marcas e agências concentram suas decisões no eixo Rio-São Paulo ou em poucas capitais, ignorando o potencial econômico do interior do país.
  2. Desconexão do modelo programático tradicional: Redes automáticas globais (como Google Ads) pagam valores baixos de CPM (custo por mil impressões) para sites pequenos, levando muitos veículos locais a desligarem as conexões automáticas por falta de retorno financeiro.
  3. Métricas de Big Techs focadas apenas em interesses: As grandes plataformas vendem mídia com base na atenção e no histórico do usuário, criando uma “visão irreal” da demografia de um local, sem considerar quantas pessoas realmente vivem e consomem em determinado município.

O que é a Nexus e como funcionam as quatro camadas de dados

Para resolver o abismo entre anunciantes e mídias locais, surgiu a Nexus, uma plataforma baseada em inteligência de dados territoriais gerida por um banco de dados próprio batizado de Midas. A ferramenta organiza os territórios brasileiros a partir do município e lê cada região em quatro camadas integradas:

  • 1ª Camada — Demografia de convivência: Vai além de dados brutos de idade e gênero do Censo/IBGE. Mapeia como as famílias se organizam nos lares (ex.: idosos morando sós, lares multigeracionais, casais sem filhos) e cruza esses dados com a renda real do quarteirão ou bairro.
  • 2ª Camada — Dados socioeconômicos e de produção: Integra bases públicas atualizadas do Banco Central, SUS, Detran e Ministério da Agricultura. Permite entender a frota de veículos (ex.: concentração de picapes ou carros elétricos), o financiamento imobiliário, os dados de vacinação e a vocação agrícola (mais de 100 culturas mapeadas, como uva e manga em Petrolina).
  • 3ª Camada — Inventário de mídia local georreferenciado: Mapeia e localiza geograficamente rádios, canais de TV, painéis de mídia exterior (OOH) e quase 10 mil portais e sites de notícias espalhados pelo Brasil.
  • 4ª Camada — Contexto e dinâmica em tempo real: Analisa fatores conjunturais que alteram o comportamento local, como sazonalidade produtiva, mobilidade urbana (fluxo em aplicativos de transporte) e eventos climáticos.

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Relevância hiperlocal: o veículo regional leva vantagem na praça

Um dos dados mais contundentes apresentados no Café com Aner diz respeito à força da marca local frente aos grandes portais nacionais.

Ao analisar praças do interior e de capitais regionais, constatou-se que veículos com forte identidade territorial — a exemplo do portal Acorda Cidade, na Bahia — superam portais gigantes e agregadores nacionais em engajamento e representatividade dentro de sua própria praça.

“O valor do veículo local, que sustenta hoje o jornalismo local é a multicanalidade. É esse poder que o veículo local tem por ser uma marca de referência e se comunicar em vários meios”, explicou Domingo.

Cinco dicas para publishers e editores fortalecerem seus veículos

Para que veículos jornalísticos de pequeno e médio porte aproveitem essa transformação e garantam sua sustentabilidade, o debate no Café com Aner destacou recomendações práticas:

  1. Use dados territoriais para pautas exclusivas: Cruzar dados de fontes públicas (como vendas do comércio, emplacamento de veículos ou boletins de saúde) gera reportagens investigativas e de serviço com forte apelo comunitário.
  2. Defenda a sua multicanalidade: Se o seu veículo atua em portal, rádio, redes sociais e eventos, apresente essa jornada completa para o mercado local e regional, em vez de vender apenas banners em páginas da web.
  3. Não prostitua o seu inventário: Fuja da armadilha de tentar acumular milhões de cliques genéricos para ganhar centavos na mídia programática global. O foco deve ser a entrega de audiência qualificada e valor de tabela justo (CPM direto/curado).
  4. Mapeie o “pulso do seu mercado”: Entenda quais setores econômicos estão crescendo na sua região (como agronegócio, construção civil ou serviços) e construa propostas comerciais alinhadas a esse momento produtivo.
  5. Aposte na cooperação e em redes (Ad Networks): Veículos de pequeno porte ganham escala comercial e poder de negociação quando se unificam em redes cooperadas que abrem portas junto a grandes marcas nacionais

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Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Instituto Innovare e divisões internas da TV Globo.