Tendências de mídia no relatório Dentsu Creative 2026: ‘slow content’ e a curadoria humana

Tendências de mídia no relatório Dentsu Creative 2026: 'slow content' e a curadoria humana

15 de janeiro de 2026
Última atualização: 15 de janeiro de 2026
7min
Relatório Dentsu Creative 2026 sobre tendência de mídia
Márcia Miranda

Sempre no início do ano fazemos um apanhado dos relatórios de tendência de mídia que circulam pelo mundo, inspirando e alertando empresários e responsáveis pela criação de estratégias e produtos para os clientes. Depois do maravilhoso artigo de Lulu Skantze, sobre o Trend Union Webinar, trazemos o relatório Dentsu Creative 2026. Ele aponta que, diante da enxurrada de conteúdo sintético, a sobrevivência dos publishers dependerá da valorização do capital humano, da aposta em nichos de fandom e do resgate de formatos analógicos.

Para gestores de comunicação e editores que navegam a transformação digital, o cenário para 2026 apresenta um paradoxo: a tecnologia que acelera a produção é a mesma que está acabando com a confiança do público. Segundo o o capítulo Generative Realities, do relatório da Dentsu, estamos entrando em uma era de resistência ao algoritmo, onde a eficiência da Inteligência Artificial (IA) deve ser equilibrada com empatia e curadoria humana.

INSIGHT 1: Para as redações, o diferencial competitivo não está mais na velocidade da notícia, mas na profundidade e na “humanidade” da conexão.

O combate ao “Slop” e a ascensão do Slow Content

O termo técnico que deve entrar no vocabulário das redações é “slop” — uma designação para o conteúdo de baixa qualidade, produzido em massa por IA, que hoje inunda as plataformas. O relatório indica que quase 1 em cada 10 canais de rápido crescimento no YouTube já é totalmente alimentado por IA, e mais de 50% do tráfego da internet é gerado por bots. Sinal preocupante para empresas de comunicação sérias, que precisam manter a qualidade e confiabilidade de seus produtos.

Mas onde alguns veem crise, outros enxergam oportunidades. A estatística também representa uma oportunidade estratégica para o mercado editorial. À medida que plataformas como Spotify e YouTube tomam medidas para barrar esse conteúdo massificado, o público demonstra um apetite renovado por “slow content” (conteúdo lento e reflexivo).

Isso já impacta modelos de negócios tradicionais. A Vogue, por exemplo, anunciou uma mudança de edições mensais para trimestrais focadas em temas, privilegiando mergulhos profundos na cultura em vez da cobertura rápida. O dado que sustenta essa guinada é robusto e é nosso segundo ponto de destaque.

INSIGHT 2: 54% da Geração Z afirma estar recorrendo a conteúdos mais lentos e gratificantes como resposta a um feed de notícias repleto de material descartável.

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A marca “Feito por Humanos” como ativo de luxo

A confiança é a moeda mais valiosa do jornalismo, e ela está sob pressão. Apenas 46% dos consumidores confiam na sua própria capacidade de identificar conteúdo gerado por IA. Mais alarmante para os publishers: a confiança em artigos cai drasticamente quando o texto “parece” ter sido gerado por máquina.

A estratégia recomendada para 2026 é a transparência radical e a valorização do autor. Marcas e veículos estão começando a investir em pequenos equívocos e imperfeição humana proposital. Campanhas como a da Canon no Brasil, “No Click, No Prompt” (veja abaixo), reforçam que a intuição e a vivência do fotógrafo (ou do jornalista) são insubstituíveis. E chegamos ao nosso terceiro destaque.

INSIGHT 3: Rotular conteúdo como “feito por humanos” ou destacar a autoria pessoal não é apenas uma questão ética, mas uma estratégia de posicionamento premium em um mar de homogeneidade algorítmica.

Atomização da audiência: Fandoms e “Third Spaces”

O modelo de “broadcast” (um para muitos) continua a perder força. O público não quer apenas consumir informação; quer pertencer. O relatório destaca que 59% das pessoas gostam do fato de que “nem todos entendem” as coisas que amam.

Para revistas e jornais, isso sugere uma mudança editorial: menos generalismo e mais verticais de comunidade. Os “fandoms” (grupos de fãs) são mais barulhentos e orgulhosos do que nunca. Veículos que conseguirem atuar como conectores dessas comunidades, preenchendo o vácuo deixado pela perda de locais de socialização além de casa e trabalho, terão maior lealdade.

Isso se reflete também na monetização. O relatório cita o crescimento do “clipping” como modelo de receita, onde streamers e influenciadores vendem ou distribuem trechos curtos de conteúdos maiores para engajar a atenção fragmentada da Gen Z. E aí chega o nosso quarto destaque.

INSIGHT 4: Facilitar o trabalho do seu fã (notem que não escrevi leitor!) no acesso à informação de que ele precisa e gosta de ver é uma necessidade urgente. Nada de sites que não abrem, cliques perdidos, inúteis, excesso de pop ups. E, por favor, seja leve ao comunicar. Descomplique a vida do seu fã.

O retorno do analógico e a desconexão

Por fim, há um movimento contra-intuitivo que favorece o impresso e as experiências físicas. Diante de um mundo online hostil e saturado, 40% dos consumidores globais afirmam que o mundo digital é tão estressante que tentam se desconectar o máximo possível.

Existe uma “nostalgia por tempos mais simples”, impulsionando o interesse por hobbies analógicos e estéticas pré-digitais (como a fotografia em filme ou revistas impressas de alta qualidade). Para o mercado de revistas, isso não sinaliza o fim do digital, mas o reposicionamento do papel. E vamos para o nosso destaque número 5!

INSIGHT 5: O papel deixa de ser veículo de notícia quente para se tornar um objeto de “luxo acessível” e desconexão, focado em design e curadoria.

Resumindo os insights do Dentsu Creative 2026 sobre tendências de mídia para redações

1. Evite o “Workslop”: Não utilize IA para criar volume de conteúdo irrelevante. O uso indiscriminado gera ineficiência e afasta o leitor.

2. Invista na Assinatura: O texto autoral, opinativo e com “voz” humana é o antídoto contra a pasteurização algorítmica. Cerca de 63% dos consumidores buscam marcas e conteúdos que se engajem com suas paixões específicas.

3. Crie Rituais: Em um mundo de fluxo contínuo, formatos que criam hábito e “parada” (como newsletters aprofundadas ou edições especiais) ganham valor.

4. Olhe para o Hiperlocal: Com a saturação global, cresce o interesse por histórias e vivências locais. 58% dos consumidores estão explorando mais seus próprios países e culturas locais em vez de olhar para fora.

5. Be real: Ofereça o que a IA não consegue replicar: perspectiva, imperfeição e comunidade real.

A íntegra do relatório Dentsu Creative 2026 sobre tendências de mídia, pode ser baixada aqui.

*Esse texto usou o Notebook LM para resumo direcionado das 47 páginas do relatório Dentsu Creative

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e Abap e divisões internas da TV Globo.