Pesquisa revela salários baixos e sobrecarga para jornalistas nas redações: o que fazer?

Pesquisa revela salários baixos e sobrecarga para jornalistas nas redações: o que fazer?

6 de julho de 2026
Última atualização: 6 de julho de 2026
11min
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Márcia Miranda

Falar sobre o próprio salário e as reais condições de trabalho sempre foi um certo tabu no jornalismo. No entanto, o silêncio tem um preço alto: ele não apenas inibe a busca por melhorias na carreira, mas também esconde a raiz de muitos problemas de gestão nas empresas de mídia. Para quebrar essa barreira e trazer dados concretos ao mercado conversamos com Flavio Moreira, que conduziu, de forma independente, a Pesquisa Nacional sobre Salários e Condições de trabalho dos Jornalistas no Brasil.

Flavio Moreira foto perfil pesquisa nacional salario jornalistas

Flavio conta que a pesquisa nasceu de uma necessidade dupla e urgente: dar visibilidade à realidade da classe para subsidiar o debate por melhores condições e oferecer um balizador real para que líderes e publishers possam estruturar remunerações justas em suas contratações, especialmente em um momento tão desafiador para o setor.

O levantamento traz um diagnóstico profundo sobre os rumos do nosso mercado. Os dados mostram, por exemplo, que as redações tradicionais já não são as maiores empregadoras: hoje, 39,6% dos profissionais atuam em agências e comunicação corporativa, superando os 36% que estão nos veículos de imprensa. É um reflexo claro do encolhimento das redações, mas que reforça a relevância do jornalista também no mundo corporativo.

Além disso, a pesquisa é um convite inevitável à reflexão sobre a sustentabilidade do nosso modelo de trabalho.

Veja os principais alertas:

  • A cultura da exaustão: Mais de 41% dos profissionais CLT excedem sua jornada contratual, impulsionados pela disponibilidade 24 horas dos smartphones e pelo medo do desemprego gerado pela precarização.
  • A urgência da diversidade real: A desigualdade racial e geográfica grita no topo da pirâmide salarial. Enquanto 23% dos jornalistas brancos ganham acima de R$ 10 mil, apenas 13,5% dos profissionais pretos e pardos alcançam esse patamar. O problema, aponta o estudo, começa já na falta de diversidade nas portas de entrada do mercado.
  • O desafio dos Publishers: É quase impossível exigir jornalismo de alta qualidade e combate à desinformação de uma categoria financeiramente sufocada. O caminho para solucionar essa equação exige que as empresas reduzam a dependência da publicidade tradicional e invistam em receitas diversificadas (assinaturas, eventos, soluções B2B).

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Jornalistas: de custo a parceiros estratégicos

O estudo também mostra que a melhoria salarial depende da sustentabilidade financeira do publisher. E que é preciso parar de olhar os jornalistas apenas como uma linha a mais na planilha de custos e passar a tratá-los como parceiros estratégicos na geração de novos produtos e fontes de recursos.

No bate-papo, Flavio Moreira detalhou os achados da pesquisa e discutiu os próximos passos para o fortalecimento do mercado de mídia no Brasil. Veja como foi:

Como e por que você resolveu desenhar e aplicar esta pesquisa?

Eu já tinha feito uma pesquisa semelhante em 2017. A ideia partiu tanto de um incômodo que eu tinha: colegas jornalistas e amigos pouco discutiam ou tinham vergonha de falar sobre os próprios salários. Eu tinha a percepção de que falar pouco sobre isso fazia com que a gente também não reivindicasse condições melhores.

Também coincidiu com uma fase em que eu estava começando a assumir posições de liderança, fazendo contratações e querendo entender qual seria uma remuneração justa para os cargos que eu contratava.

Na época, achei que a pesquisa foi válida, mas recebi muitos feedbacks úteis sobre a metodologia e identifiquei coisas que eu poderia melhorar depois. Aprendi bastante com essa primeira experiência e resolvi replicá-la agora.

Achei importante fazer isso em um momento mais desafiador para o nosso mercado. E por estar em uma posição mais isenta, sem estar ligado oficialmente a nenhuma redação. Foi uma janela que eu quis aproveitar para fazer a pesquisa dessa forma e, de alguma maneira, usar minha presença e influência para dar visibilidade a esses problemas relacionados à remuneração e às condições de trabalho.

Eu acho essa discussão superimportante. Ainda se fala muito pouco sobre isso, mas é preciso que a nossa classe tenha visibilidade sobre a própria situação para poder lutar por condições melhores.

Pesquisa salarial jornalistas os principais custos assumidos pelos PJs

39,6% dos profissionais atuam hoje em agências e comunicação corporativa — superando os 36% que estão em redações. O jornalismo tradicional está perdendo a disputa pelos melhores talentos para o mercado corporativo?

Eu não tenho um recorte que qualifique essas contratações e não saberia dizer se as agências e a comunicação corporativa estão ganhando a disputa pelos melhores talentos.

O que eu consigo perceber pelo dado é que, hoje, essas áreas empregam mais do que as redações. Também vejo isso como uma saída para um cenário em que as redações estão encolhendo muito. Hoje, há muito menos posições do que já vimos no passado e em condições também muito mais precarizadas.

Nesse contexto, ter a opção de atuar e praticar o jornalismo em comunicação corporativa ou em agência é uma alternativa bem-vinda. É algo que eu escrevi no compilado da pesquisa: isso não deixa de ser jornalismo. São funções tão necessárias quanto as ocupadas nas redações.

Particularmente, acho que essas funções poderiam ser mais destacadas e evidenciadas na formação e na graduação. A gente passa a faculdade inteira, ou praticamente inteira, sendo treinado para trabalhar em uma redação e chega ao mercado em uma realidade na qual as posições de trabalho são muito menores do que nas agências e na comunicação corporativa.

Acho que são áreas em que as habilidades do jornalista são muito bem aproveitadas. Não deixa de ser jornalismo; pelo contrário. Mas é só na prática, já no mercado de trabalho, que as pessoas acabam percebendo isso.

planilha mediana salarial dos jornalistas no Brasil Pesquisa Nacional sobre Salários e Condições de trabalho dos Jornalistas no Brasil

No regime CLT, mais de 41% dos profissionais excedem a jornada contratual e quase 38% trabalham 9 horas ou mais por dia. Por que a cultura da “disponibilidade permanente” ainda é tão forte nas redações e agências, mesmo com os avanços tecnológicos de eficiência?

Eu acho que os avanços tecnológicos pioraram essa cultura de disponibilidade permanente. Antes, a gente conseguia sair da redação, desligar e fazer outras coisas da vida. Hoje, com o smartphone na mão, estamos literalmente disponíveis 24 horas por dia.

Além dessa disponibilidade facilitada pela tecnologia, a escassez de vagas e a precarização fazem com que os profissionais se submetam a isso. As pessoas têm medo de perder seus empregos e, por isso, aceitam essa lógica de disponibilidade permanente.

Acho que essa cultura é mais um reflexo da precarização do que propriamente uma falta de limites em relação à tecnologia.

É possível produzir informação de alta qualidade, combater a desinformação e manter a relevância democrática com uma categoria tão exausta e financeiramente sufocada?

Acho difícil separar completamente esse sufocamento financeiro da realidade dos nossos profissionais. Os publishers também enfrentam diversos desafios de modelo de negócio e, muitas vezes, não conseguem gerar o faturamento necessário para manter uma redação com uma operação saudável, com qualidade, apuração e todas as outras frentes necessárias para fazer um bom jornalismo e combater a desinformação.

Eu costumo dizer que, por um lado, a tecnologia deixou algumas coisas mais fáceis, mas, por outro, hoje é muito mais caro fazer jornalismo. Não só porque você precisa de pessoas competentes para fazer a apuração e a publicação da melhor forma possível, mas também porque a distribuição ficou cara e desafiadora.

Hoje, não basta fazer conteúdo para uma única plataforma. É preciso adaptá-lo para todas as plataformas possíveis e buscar a maior visibilidade possível para conseguir justificar um modelo de negócio baseado em publicidade, que depende de grandes números.

Então, é difícil esperar alta qualidade em um cenário tão estrangulado financeiramente.

A disparidade racial fica explícita no topo da pirâmide: 23% dos brancos ganham acima de R$ 10 mil, contra apenas 13,5% de pretos e pardos. Geograficamente, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro concentram os melhores salários. O que falta para o mercado de mídia brasileiro transformar o discurso de diversidade em equidade salarial real?

Eu acho que essas disparidades nos cargos de liderança são um reflexo da falta de diversidade no jornalismo como um todo.

A gente precisa aumentar a diversidade dentro das redações, permitir a entrada de pessoas de contextos, visões de mundo e características étnicas diferentes, para que elas tenham a oportunidade de alcançar posições de liderança.

Hoje, claro, ainda existe um benefício para perfis que tradicionalmente são favorecidos. Mas o problema começa na entrada dessa diversidade. À medida que ela acontece, criam-se mais oportunidades para que pessoas diversas atinjam posições de liderança e remunerações maiores.

E isso não é apenas uma questão de ser mais diverso por ser mais diverso. Também melhora o jornalismo que a gente faz, porque traz visões de mundo e contextos diferentes daqueles que estamos acostumados a absorver.

Cerca de 40% dos jornalistas não sabem se continuarão na profissão nos próximos dois anos, e a intenção de permanência despenca entre os que avaliam o ganho como inadequado. E, por outro lado, os publishers de hoje enfrentam crises severas de monetização e quedas de audiência. Você tem alguma sugestão de como os publishers podem criar modelos de negócio capazes de ampliar o ganho dos jornalistas e trabalhar como parceiros, investindo na saúde financeira dos seus criadores?

Acho que a discussão sobre remuneração dos jornalistas passa necessariamente pela saúde financeira dos publishers. Não é possível esperar que empresas pressionadas por queda de audiência, dependência de plataformas e fragilidade do mercado publicitário consigam, sozinhas, melhorar de forma consistente as condições de trabalho e os salários das equipes.

Por isso, a diversificação de modelos de negócio e de linhas de receita é tão importante. Os publishers precisam reduzir a dependência exclusiva da publicidade baseada em grandes volumes de audiência e construir outras fontes de faturamento, como assinaturas, membership, eventos, cursos, produtos de inteligência, projetos especiais, conteúdo para marcas e soluções B2B.

Não existe uma fórmula única, porque cada veículo tem uma relação diferente com seu público, sua marca e sua área de cobertura. Mas existe uma necessidade comum: conhecer melhor a audiência, criar produtos que tenham valor percebido e construir receitas mais recorrentes e menos vulneráveis às oscilações das plataformas.

Quando o publisher consegue ter um modelo de negócio mais sustentável, ele também consegue tratar os jornalistas como parceiros estratégicos e não apenas como um custo a ser reduzido. Isso significa investir em melhores salários, formação, ferramentas, condições de trabalho e tempo para apuração. No fim, a saúde financeira das empresas e a qualidade do jornalismo não são discussões separadas e uma depende diretamente da outra.

Você tem planos de transformar essa pesquisa em uma série anual?

Pretendo transformar a pesquisa em uma série. Já recebi sugestões de novos recortes e de outros aspectos que podem ser contemplados nas próximas edições.

A recorrência também é importante para acompanhar se houve evolução ao longo do tempo e entender como as condições de trabalho, a remuneração e o perfil dos profissionais estão se transformando.

Para ter acesso à pesquisa completa basta preencher o formulário aqui.

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.