IA e jornalismo: Ricardo Gandour e a tática para desarmar fontes que usam IA

IA e jornalismo: Ricardo Gandour e a tática para desarmar fontes que usam IA

16 de março de 2026
Última atualização: 15 de março de 2026
4min
Ricardo Gandour homem branco calvo usa óculos de armação de metal blusa escura e fala sobre IA e jornalismo no Café com Aner
Márcia Miranda

A Inteligência Artificial (IA) exige de nós, profissionais da imprensa, um olhar estratégico que fuja do saudosismo, mas que proteja o cerne da nossa profissão. A dica é do jornalista Ricardo Gandour, convidado do Café com Aner número 137, que teve como tema IA e jornalismo: Quais os limites? Entrevistado por Regina Bucco, com a participação de jornalistas brasileiros e de Moçambique, Gandour falou de temas importantes, como o tom artificialmente polido da IA, o risco da busca pela produtividade em detrimento do bom jornalismo e como a IA pode ser uma boa ferramenta de trabalho.

Ex-Estadão, Globo e CBN, professor da ESPM e um dos maiores pensadores da nossa indústria, Gandour falou sobre o risco antropológico da IA. Segundo ele, ao simular um raciocínio polido, porém superficial, ela pode comprometer a credibilidade da informação e a formação de pensamento das novas gerações. Ele explicou que a preservação da voz humana em gêneros subjetivos, como o editorial e a crítica é essencial. E defendeu que o diferencial competitivo do jornalista residirá na sua capacidade de acessar emoções e garantir o rigor ético.

IA, apuração e edição com qualidade

Ricardo Gandour lembrou o impacto de grandes transformações que o jornalismo viveu nos últimos anos com tecnologias como telex, fax, e-mail e com a chegada do Google nos anos 2000, ao processar grandes pilhas de informações, dados e fontes com rapidez. E afirmou que a passagem por essas mudanças, vividas por muitos que ainda estão nas redações, deve ser relembrada como um caminho para lidar com a IA.

Se na apuração, a IA é uma aliada fantástica para a produtividade, na edição ela deve ser evitada, para preservar o raciocínio humano, o olhar de curadoria e a construção de sentido. Outro ponto de atenção e perigoso para os editores é aceitar o texto “encantador” e pronto da IA.

“O texto produzido por inteligência artificial […] é artificialmente polido, predominantemente educado, com muita frase subordinada, que é uma construção que traz o efeito de uma de uma estrutura intelectual avançada, mas às vezes tem ingenuidades”, observou, destacando que a IA é treinada para evitar conflitos, dores e a realidade nua e crua (como sangue, luto e morte).

Pelo jornalismo real e dicas para publishers

A conversa também abordou o risco de deepfakes e manipulação de informações. Para Gandour, este risco representa uma oportunidade de revalorização do jornalismo “real” e ao vivo, onde o público tem a certeza de quem está falando. Como a IA não tem capacidade genuína de opinar, gêneros como ensaio, resenha, crítica e editorial serão sempre estritamente de criação humana.

O convidado deu dicas para publishers e jornalistas seguirem adiante no jornalismo com IA:

  • Publishers não devem buscar o lucro fácil trocando o olhar editorial pela mera produtividade da IA. Isso causará a depreciação da informação e, consequentemente, perda de público.
  • O grande “risco antropológico” é a nova geração de jornalistas terceirizar seu raciocínio lógico para as máquinas e adquirir uma “preguiça cognitiva”. Conta isso, o jornalista sugere estabelecer governança editorial clara sobre o letramento e os limites do uso de IA e promover encontros presenciais entre gerações, unindo a habilidade tecnológica dos novatos com a malícia e a curadoria dos veteranos.
  • Para lidar com entrevistados que enviam respostas prontas geradas por IA, principalmente por WhatsApp, Gandour recomenda resgatar a técnica clássica da época do bloquinho: perguntar a mesma coisa de duas formas diferentes, em momentos diferentes da entrevista. Isso, segundo ele força a fonte a sair do “roteiro” da máquina e testa a consistência das respostas.

Perdeu o Café com Aner com Ricardo Gandour ou quer rever?

*Usamos o Notebook LM para a construção de parte do texto deste material.

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e Abap e divisões internas da TV Globo.