IA e jornalismo: Ricardo Gandour e a tática para desarmar fontes que usam IA

A Inteligência Artificial (IA) exige de nós, profissionais da imprensa, um olhar estratégico que fuja do saudosismo, mas que proteja o cerne da nossa profissão. A dica é do jornalista Ricardo Gandour, convidado do Café com Aner número 137, que teve como tema IA e jornalismo: Quais os limites? Entrevistado por Regina Bucco, com a participação de jornalistas brasileiros e de Moçambique, Gandour falou de temas importantes, como o tom artificialmente polido da IA, o risco da busca pela produtividade em detrimento do bom jornalismo e como a IA pode ser uma boa ferramenta de trabalho.
Ex-Estadão, Globo e CBN, professor da ESPM e um dos maiores pensadores da nossa indústria, Gandour falou sobre o risco antropológico da IA. Segundo ele, ao simular um raciocínio polido, porém superficial, ela pode comprometer a credibilidade da informação e a formação de pensamento das novas gerações. Ele explicou que a preservação da voz humana em gêneros subjetivos, como o editorial e a crítica é essencial. E defendeu que o diferencial competitivo do jornalista residirá na sua capacidade de acessar emoções e garantir o rigor ético.
IA, apuração e edição com qualidade
Ricardo Gandour lembrou o impacto de grandes transformações que o jornalismo viveu nos últimos anos com tecnologias como telex, fax, e-mail e com a chegada do Google nos anos 2000, ao processar grandes pilhas de informações, dados e fontes com rapidez. E afirmou que a passagem por essas mudanças, vividas por muitos que ainda estão nas redações, deve ser relembrada como um caminho para lidar com a IA.
Se na apuração, a IA é uma aliada fantástica para a produtividade, na edição ela deve ser evitada, para preservar o raciocínio humano, o olhar de curadoria e a construção de sentido. Outro ponto de atenção e perigoso para os editores é aceitar o texto “encantador” e pronto da IA.
“O texto produzido por inteligência artificial […] é artificialmente polido, predominantemente educado, com muita frase subordinada, que é uma construção que traz o efeito de uma de uma estrutura intelectual avançada, mas às vezes tem ingenuidades”, observou, destacando que a IA é treinada para evitar conflitos, dores e a realidade nua e crua (como sangue, luto e morte).
Pelo jornalismo real e dicas para publishers
A conversa também abordou o risco de deepfakes e manipulação de informações. Para Gandour, este risco representa uma oportunidade de revalorização do jornalismo “real” e ao vivo, onde o público tem a certeza de quem está falando. Como a IA não tem capacidade genuína de opinar, gêneros como ensaio, resenha, crítica e editorial serão sempre estritamente de criação humana.
O convidado deu dicas para publishers e jornalistas seguirem adiante no jornalismo com IA:
- Publishers não devem buscar o lucro fácil trocando o olhar editorial pela mera produtividade da IA. Isso causará a depreciação da informação e, consequentemente, perda de público.
- O grande “risco antropológico” é a nova geração de jornalistas terceirizar seu raciocínio lógico para as máquinas e adquirir uma “preguiça cognitiva”. Conta isso, o jornalista sugere estabelecer governança editorial clara sobre o letramento e os limites do uso de IA e promover encontros presenciais entre gerações, unindo a habilidade tecnológica dos novatos com a malícia e a curadoria dos veteranos.
- Para lidar com entrevistados que enviam respostas prontas geradas por IA, principalmente por WhatsApp, Gandour recomenda resgatar a técnica clássica da época do bloquinho: perguntar a mesma coisa de duas formas diferentes, em momentos diferentes da entrevista. Isso, segundo ele força a fonte a sair do “roteiro” da máquina e testa a consistência das respostas.
Perdeu o Café com Aner com Ricardo Gandour ou quer rever?
*Usamos o Notebook LM para a construção de parte do texto deste material.


