As lições de sobrevivência e inovação de Mara Luquet para empreendedores de mídia

As lições de sobrevivência e inovação de Mara Luquet para empreendedores de mídia

18 de agosto de 2026
Última atualização: 18 de agosto de 2026
6min
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Márcia Miranda

A trajetória de Mara Luquet na construção do canal My News oferece um verdadeiro mapa de sobrevivência, inovação e governança para empreendedores de jornalismo e publishers do mercado editorial. A jornalista foi a convidada do Café com Aner e deu conselhos estratégicos importantes para jornalistas contratados e empreendedores. Veja aqui quais foram eles.

Fundadora do Canal My News, Mara é uma jornalista profissional e empreendedora pioneira em mídia digital. Formada e moldada no jornalismo impresso, atuou por 10 anos na TV Globo. Atenta ao avanço das redes sociais e à evolução da tecnologia — que sempre considerou uma forte aliada —, ela tomou a decisão inusitada de deixar a grande mídia televisiva para empreender por conta própria. Hoje, o canal de jornalismo independente My News caminha para seus 8 anos de história.

Mara atua hoje como mentora no desenvolvimento de uma incubadora voltada para acelerar novos canais e profissionalizar o ecossistema de news creators.

“Eu acredito firmemente que ao fortalecer esse ecossistema todo mundo se beneficia.“, diz ela, desacando a importância de reconhecer e estimular o trabalho de jornalistas de diversos pontos do Brasil. “Essa nossa experiência da incubadora me mostrou que você tem jornalistas incríveis no Brasil fazendo coisas, incríveis, que estão lá escondidos, que ninguém faz nada por eles.”, destaca. “Não faz sentido mandar alguém pro Amazonas se você tem excelentes jornalistas no Amazonas, entendeu? E eles conhecem muito mais do que eu”, afirma.

Veja alguns dos principais conselhos estratégicos da jornalista

1. Abrace a tecnologia e a inovação como aliadas

Para Mara Luquet, a tecnologia nunca deve ser vista como uma ameaça aos empregos dos jornalistas, mas sim como uma aliada indispensável. Lutar contra a inovação tecnológica é uma “luta ingrata”; o segredo do sucesso para qualquer publisher é conhecer as ferramentas profundamente e fazer o melhor uso possível delas para aproximar a informação do público.

2. A “tese do nichamento” e a economia em rede

Uma das maiores viradas de chave para os empreendedores digitais é compreender que o streaming e as redes não funcionam no modelo de “grade vertical” centralizada das grandes redes de TV.

  • Operação em rede: O ambiente digital opera em rede, onde a distribuição favorece a especialização.
  • Entendendo o nichamento: No YouTube, o algoritmo não distribui bem canais que misturam temas muito diversos em uma mesma página. O My News aprendeu isso na prática e passou a separar seus programas em canais específicos (como o My News Invest e o My News Vida e Previdência).
  • Evite misturar públicos opostos: Um erro muito comum no mercado editorial é colocar editorias de interesses conflitantes, como esportes e política, no mesmo canal. Essa mistura confunde o algoritmo e acaba minando a audiência de ambos os temas.

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3. Modelo comercial focado na dor do cliente

Vender publicidade no ambiente digital exige uma mentalidade que vai muito além de simplesmente tentar emplacar “vinhetas” ou anúncios tradicionais.

  • Abordagem consultiva: A principal dica comercial de Mara é, ao falar com uma marca parceira, perguntar diretamente: “Qual é a sua dor? O que você gostaria de comunicar que hoje o mercado não oferece?”. Com essa resposta, cria-se um projeto de branded content personalizado, que resolve o problema do cliente sem ferir a independência jornalística.
  • Ajuste ao orçamento: Monte a proposta dentro do orçamento do cliente, garantindo que o seu veículo de comunicação não tenha prejuízo. O lucro financeiro do projeto virá do tráfego orgânico e do AdSense gerados de forma constante pela publicação daquele conteúdo de alta qualidade.
  • Preservação da ética: O publisher deve ter a coragem de recusar patrocínios que possam comprometer a credibilidade do veículo — como a decisão do My News e de outros veículos de não aceitar anúncios de casas de apostas (bets). A premissa é simples: não ter patrocinadores dos quais o veículo sinta vergonha.

4. Estrutura operacional enxuta e sem “estrelas”

Tentar replicar a estrutura inchada das grandes redes de TV no jornalismo independente é um erro que compromete a sustentabilidade financeira do negócio.

  • Equipes enxutas e horizontais: O My News reduziu sua estrutura de 40 para 20 profissionais para garantir fôlego financeiro. Em redações independentes, a estrutura precisa ser horizontal, onde “todo mundo lava, passa e cozinha”.
  • Remuneração participativa: Em vez de salários fixos exorbitantes para “celebridades”, o modelo sustentável adota salários fixos moderados e foca na partilha de resultados, bonificando a equipe (com 13º, 14º e bônus) sempre que a empresa tem lucro ou quando projetos específicos são viabilizados. Isso mantém o “barco” equilibrado e evita disparidades internas nocivas.

5. Diversificação de receitas e busca por fundos

Publishers não podem depender unicamente de publicidade direta ou de repasses do governo. A sustentabilidade exige múltiplas frentes de receita:

  • Ferramentas de plataforma: Aproveite ao máximo recursos como programas de membros (membership) e o YouTube Shopping.
  • Apoios e editais internacionais: Existem fundações que financiam projetos jornalísticos sérios sem qualquer interferência editorial. Mara recomenda que os publishers busquem ativamente recursos do Google News Initiative (GNI), de iniciativas científicas como o Instituto Serra Pilheira e de fundos de investimento em mídia independente, como o MDIF (Media Development Investment Fund).

6. O valor dos “news creators” e a força das certificações

  • Brand Safety: Ao contrário dos influenciadores digitais comuns, os jornalistas profissionais (“news creators”) oferecem um ambiente seguro para as marcas, pois operam sob princípios éticos, eliminando os riscos de discursos de ódio ou polêmicas que possam prejudicar os anunciantes.
  • Selo de Qualidade Independente: Mara propõe que associações do mercado editorial (como a Aner) criem selos de certificação de jornalismo profissional. Essa validação independente ajudaria os algoritmos das plataformas digitais a reconhecerem canais sérios (evitando desmonetizações automáticas injustas por abordarem notícias difíceis) e daria mais segurança para marcas e agências direcionarem suas verbas.

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Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.