IA no jornalismo: 'O olhar humano sempre vai ser fundamental'

Em uma edição histórica que marcou o encontro de número 150 do Café com Aner, a Associação Nacional de Editores de Revistas recebeu o jornalista e professor Ricardo Gandour para um debate essencial: o impacto da Inteligência Artificial (IA) no jornalismo. Com uma carreira que atravessa grandes redações como Folha, Estadão e CBN, Gandour trouxe uma visão equilibrada, longe da nostalgia, mas profundamente fincada nos valores que definem a profissão.
Para jornalistas, publishers e gestores de comunicação, Gandour deixou uma mensagem essencial: a tecnologia muda o “como” fazemos, mas o “porquê” e o “finalmente” continuam sendo exclusividade do ser humano.
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A IA no jornalismo não é apenas uma ferramenta; ela muda o processo de pensar
Gandour ressaltou que, ao contrário de mudanças tecnológicas anteriores (como o fax ou o surgimento do Google), que afetavam majoritariamente a produtividade e o “jeito de fazer”, a IA generativa mexe com o processo de pensar e com a lógica do trabalho.
Ele divide o ecossistema jornalístico em dois grandes processos para analisar esse impacto:
1. Apuração (data gathering)
Nesta fase, a IA é vista como uma aliada fantástica e quase inevitável. Ela funciona como um “radar” potente para a coleta de dados, fatos e contextos, elevando a capacidade de pesquisa à enésima potência. No entanto, os cuidados clássicos de checagem e cruzamento de fontes permanecem indispensáveis.
2. Edição e curadoria
É aqui que Gandour defende o olhar humano. Embora a IA possa simular a construção de um texto ou narrativa, a decisão final — o que filtrar, o que derrubar e qual tom dar à história — é um ato autoral e intelectual.
“Editar é selecionar, é jogar coisa fora. Praticar essa desconfiança jornalística é essencial na era da IA” – Ricardo Gandour.
O risco do individualismo e a força do coletivo
Um ponto de alerta levantado durante o Café foi como as novas ferramentas incentivam o individualismo. Hoje, um único profissional pode escrever, diagramar e ilustrar uma página inteira, o que enfraquece os encontros de jornalistas para a reunião de pauta e a troca de experiências entre gerações.
Para os publishers, o desafio é preservar espaços de discussão coletiva. Gandour defende que a autoridade editorial nasce dessa troca e da vivência, algo que a IA apenas simula.
Veja alguns insights sobre IA no jornalismo para o mercado publishing
Durante o bate-papo, surgiram insights valiosos para veículos de diferentes portes:
- Aposte no hiperlocal: Para jornais e revistas do interior ou de nicho, o conteúdo hiperlocal é insubstituível. A IA sabe o que aconteceu no mundo até ontem, mas o que acontece na sua comunidade agora é o jornalista quem conta.
- Monetização via eventos: Gandour apontou que encontros presenciais e seminários são, atualmente, uma das formas mais eficazes de gerar receita e fortalecer a marca editorial.
- O “voo visual” do jornalista: A tecnologia é como os instrumentos de um avião; eles ajudam, mas o “voo visual” (a experiência e a sensibilidade do piloto ao olhar para o céu) é o que garante a segurança e a profundidade da informação.
- Cuidado com a “simulação de verdade”: A IA pode gerar frases que “soam bem”, mas que estão usando palavras erradas. A desconfiança deve ser a ferramenta número um do jornalista ao lidar com saídas de sistemas automatizados.
O dedo no pulso do leitor
Ao fim, a mensagem principal é de que o jornalismo continua sendo sobre pessoas. Como lembrou a diretora executiva da Aner, Regina Bucco, o jornalista é quem consegue colocar o “dedo no pulso do leitor”, sentindo suas dores e necessidades de uma forma que nenhum algoritmo é capaz de replicar.
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