Por que fechar acordos individuais com big techs pode destruir sua marca?

Por que fechar acordos individuais com big techs pode destruir sua marca?

12 de junho de 2026
Última atualização: 12 de junho de 2026
6min
Márcia Miranda

Se você ainda acha que a maior ameaça da Inteligência Artificial é a substituição dos repórteres nas redações, você está desatualizado. No nosso Café com Aner do dia 9 de junho, a conversa com o professor Marcelo Santos, diretor acadêmico da Faculdade Cásper Líbero e especialista em economia da informação, mudou a perspectiva do mercado. Em um papo denso, provocativo e extremamente atual, Marcelo mostrou o que acordos individuais e o avanço das big techs significam para o futuro das revistas, jornais e portais. Se você é publisher, jornalista ou gestor no mercado editorial, aqui estão os principais alertas e caminhos práticos para não deixar o seu veículo ser engolido.

O Café com Aner é um encontro online semanal, realizado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), focado em publishers, editores e profissionais de mídia. Com quase 150 edições, o evento gratuito discute ferramentas de tecnologia, monetização, questões jurídicas e tendências do jornalismo, geralmente às terças-feiras, às 15h, conduzido pela diretora executiva da Aner, Regina Bucco.

“Capitalismo de Dados”: o dinheiro está em distribuir conteúdo

Marcelo Santos, começou seu choque de realidade afirmando que a IA não quer produzir conteúdo. Ela quer ser o veículo. Segundo ele, para entender o movimento das grandes plataformas de Inteligência Artificial, é preciso olhar para a economia. O professor foi direto e cirúrgico ao afirmar que o dinheiro grosso do mercado editorial nunca esteve na produção de conteúdo, mas sim na sua distribuição.

“Os donos das inteligências artificiais não querem o ônus de produzir porque produzir dá trabalho em vários aspectos, inclusive custa bastante dinheiro. Elas querem reproduzir”, afirmou, explicando, em seguida: “Porque produzir conteúdo não é onde está o dinheiro hoje; o dinheiro está em distribuir o conteúdo.”

É aqui que entra o chamado Capitalismo de Dados: as empresas de IA sugam o conteúdo original, valioso e apurado pelos jornalistas, transformando-o em insumo gratuito (dados) para alimentar seus robôs.

Santos usou uma metáfora sobre as antigas listas telefônicas: elas eram bancos de dados caríssimos para serem montados fisicamente, mas que, ao serem digitalizados e copiados, viraram commodities que custavam centavos.

O alerta vermelho é claro: se o jornalismo virar apenas um insumo não remunerado para o ChatGPT ou o Google, seremos nós a nova lista telefônica.

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O perigo dos acordos individuais e da transformação das notícias em commodity

Um dos pontos mais quentes do Café foi a reflexão sobre o momento em que grandes veículos decidem fechar acordos individuais com big techs, como a OpenAI, para licenciar seus conteúdos. Embora esses acordos possam remediar um problema financeiro no curto prazo, Marcelo alerta que, a longo prazo, eles apenas “legalizam” a exploração e transformam a marca — construída com décadas de suor — em uma mera commodity sem valor.

Para explicar a situação, Marcelo citou o texto de Arthur Gregg Sulzberger, publisher do The New York Times, no 77th World News Media Congress, realizado entre 1 e 3 de junho em Marselha, na França. O especialista fez o que Marcelo chamou de “radiografia crítica” do segmento, evidenciando o quanto as empresas precisam parar e pensar sobre as ações a tomar adiante.

“Ele mostra qual é a cadeia alimentar, acho que a gente pode chamar desse jeito, de produção de conteúdo noticioso através das inteligências artificiais conversacionais. A base da pirâmide é a reportagem original, como Regina falou, com jornalistas em campo com boas práticas de checagem, investigações, entrevistas. E isso tem um custo alto e um risco igualmente alto. E aí, as plataformas de rede social começam a agregar isso e no topo da pirâmide, estão os modelos conversacionais, sintetizando o que já foi publicado. Sem essa base, esse topo não existe. E se a gente não tem essa leitura e não entende que jornalismo é a base, a gente vai se contentar com qualquer migalha que jogarem no chão. Essa é uma conversa muito importante”, alertou o professor.

Veja mais insights sobre Sulzberger e o 77th World News Media Congress no artigo exclusivo de Lulu Skantze para a Aner.

Qual a saída para os publishers?

A partir desta panorama, Marcelo traça as metas do que seria a melhor saída para os publishers: consciência de classe. O professor afirma que apenas atuando em bloco, como um setor unido, em associações como Aner, os publishers e jornalistas terão força para pressionar o poder público por regulações justas e negociar contrapartidas reais e acordos com as big techs.

Veja algumas dicas de sobrevivência para publishers e jornalistas

Se a previsão é de uma queda drástica no tráfego orgânico vindo de buscadores e a chegada de um “oceano sintético” de conteúdos gerados por IA, o que fazer?

1. Desmame do Google e foque na comunidade fechada

Depender exclusivamente do SEO tradicional e dos cliques em buscadores é uma armadilha. A estratégia agora é criar modelos de distribuição próprios. Invista em newsletters, comunidades fechadas e bases de assinantes. O usuário precisa sentir pertencimento e ir direto ao seu site porque confia em você, sem intermediários.

2. Valorize o “Entregável” além da notícia

Pare de tentar competir no volume. O capitalista de dados ganha na escala; nós ganhamos no discernimento. Comece a vender confiança, atenção e exclusividade. Jornalismo de serviço genérico vai perder valor, enquanto a investigação exclusiva e o conteúdo com curadoria explícita (pense no peso que marcas como a Vogue têm) sairão ganhando.

3. Expanda para novos mercados

Sua marca é o seu principal ativo. Proteja-a e a expanda para além da publicação diária. Há um oceano de oportunidades em educação, eventos imersivos de alto nível e serviços B2B (Business to Business). Monetize o prestígio e o acervo histórico da sua revista.

4. O “Teste do Tweet”

Você consegue explicar em apenas uma frase por que a sua marca editorial não pode ser substituída por uma resposta sintética de uma IA? Se você não tem clareza sobre o valor humano e a curadoria que seu veículo entrega, seu leitor também não terá.

5. Faça parte de uma associação de categoria

Nadar sozinho no maremoto de ameaças e oportunidades que a IA traz é muito mais difícil. Estar em uma associação aumenta a troca de informações, dados, insights e experiências, além de aumentar as chances de negociações coletivas mais fortes. Venha participar da Aner. Clique aqui, preencha os dados e receba um contato pessoal do nosso time!

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Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.