Insights do 77th World News Media Congress, em Marselha

Insights do 77th World News Media Congress, em Marselha

9 de junho de 2026
Última atualização: 9 de junho de 2026
10min
World News Media Congress artigo Lulu Skantze jornalismo plateia imprensa
Márcia Miranda

Que tal informações exclusivas sobre o 77th World News Media Congress das mãos de quem vive o dia a dia do publisher? Nossa correspondente na Europa, Lulu Skantze, esteve no evento, ao lado de mais de 1.300 jornalistas e profissionais de mídia de diferentes partes do mundo, e fez anotações importantes sobre o que o mercado europeu anda vivendo e planejando. No artigo, informações sobre os mais de 20 milhões de dólares que o NYT já gastou em dois anos de processos contra extração ilegal de dados por IAs. Mas, assim como no nosso Aner Summit, há também o debate sobre quem é dono dos dados e sobre o papel da nossa profissão na Era da IA… Aproveite!

Uma das minhas coisas favoritas na vida é fazer algo pela primeira vez.

Embora já tenha participado de inúmeras feiras de livros, feiras de licenciamento, congressos de revistas e simpósios de tecnologia ao longo dos anos, o 77º Congresso Mundial de Mídia Noticiosa da WAN-IFRA, em Marselha, foi o meu primeiro Congresso WAN-IFRA. E que estreia.

Ladina Heimgartner, presidente da WAN-IFRA, mencionou que este foi o maior congresso da história da organização, com mais de 1.300 jornalistas e profissionais de mídia de diferentes partes do mundo e, de fato, foi exatamente essa a sensação. E também a de que seria impossível absorver tudo o que estava acontecendo ali ao mesmo tempo.

Para descrever todas as sessões eu precisaria de mais espaço (e memória) do que tenho, talvez de mais tempo também… mas aqui vão alguns deles.

Roubo descarado de propriedade intelectual

A palestra de A.G. Sulzberger foi daquelas sobre as quais as pessoas ainda vamos  lembrar por muitos anos. Recomendo muito a leitura na íntegra que a Reuters publicou:

https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/news/new-york-times-publisher-g-sulzberger-why-and-how-news-publishers-should-fight-ai-platforms

Sua mensagem sobre IA e jornalismo foi corajosa e necessária, além dos insights valiosos, uma vez que o New York Times tem sido um dos primeiros veículos a encarar a IA de frente. Ele chamou o uso não autorizado do jornalismo pelas plataformas de IA de “um roubo descarado de propriedade intelectual” e tocou em algo que nós, como indústria, não conseguimos resolver nem antes da IA: qual é o valor do nosso ofício? Qual é o valor da criatividade humana?

Quando subestimamos algo tão essencial, mas tão difícil de medir, fica muito mais difícil protegê-lo. Mas nenhum LLM pode ser treinado sem aquilo que os humanos criam primeiro – mas de tudo que a IA precisa para funcionar, a única coisa que não parecem dispostos a pagar é o conteúdo. Todas as outras – infraestrutura, engenheiros e semiconductors – estão custando bastante caro. O NYT está bastante empenhado em criar um modelo de licenciamento que funcione para todos nós, mas eles admitem que é preciso muito dinheiro para essa luta — já que apenas dois anos de processo já custaram mais de 20 milhões de dólares ao NYT.

Ainda assim, é preciso entender o valor do conteúdo enquanto seguimos no desafio de aprender a usar a IA com sabedoria, construir relações diretas com as audiências, investir em reportagem original e continuar explicando por que o jornalismo importa. Mas tudo isso sem esquecer que provavelmente precisaremos de ótimos advogados para ajudar no resgate.

Soberania de dados, infraestrutura digital e espaço democrático de informação

A plenária de abertura de Henna Virkkunen também foi extremamente oportuna neste momento de transição. Como vice-presidente executiva da Comissão Europeia para Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, ela falou em um momento em que a Europa finalmente começa a levar muito mais a sério a soberania dos seus dados, da sua infraestrutura digital e do seu espaço democrático de informação.

A conversa já não é apenas sobre inovação. É sobre quem controla os sistemas, quem é dono dos dados e se sociedades democráticas podem continuar dependentes de tecnologias que não governam plenamente.

Em maio de 2026, surgiram relatos de que a Microsoft havia fornecido documentos a um comitê da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos contendo nomes e informações de funcionários públicos holandeses que trabalhavam para a Autoridade de Consumidores e Mercados dos Países Baixos (ACM) e para a Autoridade Holandesa de Proteção de Dados (AP). Segundo as informações divulgadas, os documentos incluíam e-mails, convites para reuniões e atas que não haviam sido totalmente anonimizados.

Quem realmente controla os sistemas de informação que sustentam a democracia? Armazenar dados na Europa não é necessariamente o mesmo que ter controle sobre eles.

O coração em uma mão e a câmera na outra

Um momento que me deixou mais do que um pouco emocionada foi o Prêmio Golden Pen of Freedom de 2026, concedido aos fotojornalistas e videojornalistas profissionais de Gaza. Um prêmio coletivo — e impossível de ouvir sem emoção o relato do que tem acontecido lá.

Mais de 260 jornalistas foram mortos desde o início da guerra. A coragem necessária para continuar registrando, testemunhando e mostrando ao mundo o que está acontecendo sob tais condições é quase impossível de compreender.

Mohammed Salem, um dos fotógrafos que recebeu o prêmio, disse que carregava o coração em uma mão e a câmera na outra. Eu desafio você a imaginar fazer o mesmo no exercício da sua profissão. O irmão de Mohammed, também jornalista, foi morto durante o conflito. Ele disse que continuava porque sabia que a história precisava ser contada.

E houve também a conversa com Rima Abdul Malak, ex-ministra da Cultura do Líbano e agora editora-chefe do L’Orient-Le Jour. No mesmo dia em que falava sobre manter seus jornalistas em segurança nas zonas de conflito, ela também imaginava o que vem a seguir: podcasts no fim do dia, novas formas de alcançar e informar a diáspora libanesa e ainda mais idiomas para levar jornalismo confiável a quem precisa dele.

RSF: menos de 1% da população vive em um país onde a liberdade de imprensa é classificada como “boa”

Essa combinação de liderança em meio à crise e visão de futuro, com uma determinação ímpar de continuar escrevendo, é inspiradora. Mas esse, para mim, era o tema presente em quase todas as palestras: continuamos porque precisamos contar a história.

Um dado bastante perturbador, mas talvez não surpreendente para nós da indústria, foi que, segundo o Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026 da Repórteres Sem Fronteiras, menos de 1% da população mundial vive hoje em um país onde a liberdade de imprensa é classificada como “boa”. Em 2002, esse número era de cerca de 20%.

Naquela época, aproximadamente uma em cada cinco pessoas vivia em países com proteções muito fortes ao jornalismo independente. Hoje, é menos de uma em cada cem.

Isso é um problema da mídia, um problema da democracia, um problema da sociedade e um problema humano. Um problema que afeta todos nós, mesmo os que clamam que não “precisam” de impresa.

E quando Stig Kirk Ørskov, CEO da WAN-IFRA, fala sobre a imprensa confiável estar diretamente ligada a sociedades melhores e mais felizes, é impossível discordar.

Jornalismo = evidências, contexto, memória e coragem

A imprensa nos mantém informados, registra a história enquanto ela acontece e nos ajuda a pensar criticamente. Mas, acima de tudo, em tempos de líderes obcecados pelo poder, ela responsabiliza o poder — ou pelo menos tenta. E ainda continua sendo o mecanismo mais confiável para manter a democracia.

E não consigo deixar de pensar em quantos abusos de poder a mais aconteceriam se houvesse menos jornalistas fazendo esse trabalho tão difícil, corajoso e muitas vezes ingrato.

Mas o jornalismo faz algo mais, que muitas vezes passa despercebido: ele forma cidadãos. Ajuda-nos a compreender o mundo além da nossa cidade, do nosso país e do nosso próprio ponto de vista. Ele nos desafia a pensar, nos conecta e pede que nos importemos com o que acontece além.

Por isso, estar em uma sala com algumas das melhores mentes da mídia noticiosa foi um verdadeiro presente. Havia estratégia, claro. IA, assinaturas, audiências, confiança, Geração Z, plataformas, receita, liderança.

Mas, por trás de tudo, havia a crença que não nos deixa parar: a de que a informação é importante e de que as audiências merecem mais do que os ruídos das mídias sociais, fake news e algoritmos.

Jornalistas são contadores de histórias do mais alto calibre, mas com uma responsabilidade que vai muito além de contar histórias. Eles carregam evidências, contexto, memória e coragem.

Comunidades, confiança e conexão

Também falamos muito de soluções. Katharine Viner, do The Guardian, falou do modelo único deles, em que leitores e apoiadores contribuem diretamente para o jornalismo e ajudaram a gerar mais de 125 milhões em receitas no ano passado.

É um modelo que só funciona quando você constrói uma comunidade que confia e se conecta com a sua mensagem, mas prova que isso é possível. O The Atlantic falou sobre algo semelhante no Congresso da FIPP do ano passado, e construiu um modelo sólido de assinaturas assim também.

Estamos sedentos por confiança. Por confiar no meio, por confiar na mensagem. Predispostos a apoiar alguém que nos ajude a desafiar a ignorância e a desinformação.

Leva tempo para construir essa relação – e Katharine não fez nada parecer fácil. Mas o que o The Guardian tem de mais singular é seu modelo de propriedade. Ao contrário da maioria das organizações de mídia, ele não pertence a uma família e suas decisões são menos influenciadas por interesses individuais.

Como leitora e colaboradora de longa data, admiro o modelo deles, sua ética, seu compromisso com um jornalismo sério e relevante e sua busca por soluções em um cenário de mídia tão desafiador.

Mas também mostra que tudo isso é possível. E eu gosto de pensar assim também.

Houve muitos outros momentos, incluindo as conversas do FIPP Insider que aconteceram ali, sobre as quais vou escrever separadamente. Afinal, essa é uma grande razão pela qual o Congresso foi especial para mim.

No ano que vem, o Congresso será em Estocolmo.

Espero estar lá.

E espero encontrar mais amigos e colaboradores do Brasil por lá também.

Para saber mais sobre o evento, visite a página da WAN-Ifra.

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.