Liberdade de imprensa e IA: quais as melhores práticas?

Liberdade de imprensa e IA: quais as melhores práticas?

15 de maio de 2026
Última atualização: 19 de maio de 2026
5min
Café com Aner Hélio Gama Neto liberdade de imprensa melhores práticas na era da ia
Márcia Miranda

Não é novidade que fazer jornalismo no Brasil exige resiliência. Mas, em um cenário onde o tribunal da internet julga em segundos e a desinformação ganha escala automatizada, como os publishers e editores podem proteger seus veículos e seus profissionais? Para conversar sobre este tema, o Café com Aner recebeu no dia 12 de maio o jornalista Hélio Gama Neto. Com quase 40 anos de atuação na imprensa e atual diretor de comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Hélio trouxe um panorama cirúrgico sobre a liberdade de imprensa e os impactos das novas tecnologias no nosso setor.

“A liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, a democracia e o jornalismo funcionam como o ciclo da água: uma grande engrenagem que, se faltar uma peça, pode não terminar nada bem”, alertou o jornalista logo no início do bate-papo.

O Café com Aner é um encontro online semanal, realizado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), focado em publishers, editores e profissionais de mídia. Com mais de 140 edições, o evento gratuito discute ferramentas de tecnologia, monetização, questões jurídicas e tendências do jornalismo, geralmente às terças-feiras, às 15h, conduzido pela diretora executiva da Aner, Regina Bucco.

Liberdade de imprensa e assédio judicial: como a união do setor pode funcionar como um escudo?

Hélio Gama Neto explica que um dos maiores gargalos atuais para as redações, independentemente do tamanho do veículo, é a judicialização da profissão. Segundo ele, nas instâncias inferiores, multiplicam-se decisões preocupantes que ferem a Constituição, impondo censura prévia, multas e a remoção arbitrária de conteúdos. E, nesta situação, o isolamento é o maior inimigo de um veículo processado.

Neste sentido, instituições que buscam associar empresas, como Aner, ANJ, Ajor, Abraji e a Repórteres Sem Fronteiras, que tem um trabalho de proteção da imprensa, têm sido determinantes para reverter decisões injustas. Um exemplo recente foi a decisão do STF que reconheceu e inviabilizou o “assédio judicial” (quando diversas ações são abertas em comarcas diferentes para inviabilizar o trabalho e as finanças de jornalistas).

Jornalismo com método é o antídoto para a desinformação

Em um ecossistema digital poluído, em que a criação de uma mentira tem custo é zero, mas a apuração da verdade custa caro, Helio recomenda a prudência. Segundo ele, não vale a pena competir com a velocidade irresponsável das redes sociais. Ainda que cerca de 63% das pessoas não tenham interesse em checar as informações que consomem nas redes antes de repassá-las, o jornalista afirma que os publishers devem investir no que os algoritmos não conseguem fazer: jornalismo com método.

Na prática, isso significa chegar rigorosamente as informações, ter transparência ao admitir e corrigir os erros e respeitar a ética profissional, com profundidade analítica. E é este comportamento que dá à imprensa a credibilidade e, consequentemente, a atração de assinantes fiéis.

Inteligência artificial no jornalismo e a importância da regulação das Big Techs

O impacto da Inteligência Artificial e o domínio das grandes plataformas de tecnologia pautaram grande parte do debate. Helio falou sobre o modelo de negócios das Big Techs, em que desinformação, sentimentos como raiva e ódio geram mais engajamento e, consequentemente, mais lucro. A engrenagem é potencializada pela IA, que tem sido usada para criar ataques sofisticados, como avatares falsos de apresentadores de TV para espalhar fake news até o uso de deepfakes sexuais para desqualificar jornalistas mulheres.

Para combater esse modelo, Helio recomenda mais uma vez a união dos jornalistas e das empresas de comunicação pela aprovação de um modelo de remuneração do conteúdo e de simetria legal, para que as plataformas sejam responsabilizadas pelo conteúdo que multiplicam. Segundo ele, as plataformas de tecnologia operam hoje como grandes editoras e, portanto, precisam assumir a responsabilidade sobre o que publicam. Para isso, publishers devem apoiar e participar das mesas de diálogo que buscam essa solução.

Os riscos da polarização e do tribunal da internet

Outro ponto abordado pelo jornalista foi a polarização e constante reação do público com o cancelamento de perfis. Hélio afirma que as redes sociais criaram um ambiente de cancelamento rápido, a chamada “lacração” e o excesso de identitarismo levado a extremos. Ele ressaltou o recente caso da Folha de S.Paulo, onde uma chargista foi “linchada” virtualmente por uma coincidência infeliz entre a publicação de uma crítica sobre penduricalhos judiciais e o falecimento trágico de uma juíza, sem que houvesse qualquer intenção ou ligação da profissional com a morte.

Para evitar o aumento destas situações, Helio defende que editores e publishers não pautem a linha editorial de seus veículos pelo medo do cancelamento ou pela histeria das bolhas digitais. Como princípios fundamentais do jornalismo, o contraditório e o diálogo são vitais.

“A sociedade é plural, é diversa. A gente tem que passar o tempo inteiro conversando, dialogando e construindo consensos a partir das divergências, porque elas são elas são necessárias. É bom que que haja divergência, é bom que as pessoas possam mudar de opinião quando se dão conta de que estão erradas. E e é bom que a gente não mude opinião às vezes e nem um lado nem outro e que encontre um consenso para que haja avanço”, afirma.

Perdeu o Café com Aner ou quer rever?

Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.