Liberdade de imprensa e IA: quais as melhores práticas?

Não é novidade que fazer jornalismo no Brasil exige resiliência. Mas, em um cenário onde o tribunal da internet julga em segundos e a desinformação ganha escala automatizada, como os publishers e editores podem proteger seus veículos e seus profissionais? Para conversar sobre este tema, o Café com Aner recebeu no dia 12 de maio o jornalista Hélio Gama Neto. Com quase 40 anos de atuação na imprensa e atual diretor de comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Hélio trouxe um panorama cirúrgico sobre a liberdade de imprensa e os impactos das novas tecnologias no nosso setor.
“A liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, a democracia e o jornalismo funcionam como o ciclo da água: uma grande engrenagem que, se faltar uma peça, pode não terminar nada bem”, alertou o jornalista logo no início do bate-papo.
O Café com Aner é um encontro online semanal, realizado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), focado em publishers, editores e profissionais de mídia. Com mais de 140 edições, o evento gratuito discute ferramentas de tecnologia, monetização, questões jurídicas e tendências do jornalismo, geralmente às terças-feiras, às 15h, conduzido pela diretora executiva da Aner, Regina Bucco.
Liberdade de imprensa e assédio judicial: como a união do setor pode funcionar como um escudo?
Hélio Gama Neto explica que um dos maiores gargalos atuais para as redações, independentemente do tamanho do veículo, é a judicialização da profissão. Segundo ele, nas instâncias inferiores, multiplicam-se decisões preocupantes que ferem a Constituição, impondo censura prévia, multas e a remoção arbitrária de conteúdos. E, nesta situação, o isolamento é o maior inimigo de um veículo processado.
Neste sentido, instituições que buscam associar empresas, como Aner, ANJ, Ajor, Abraji e a Repórteres Sem Fronteiras, que tem um trabalho de proteção da imprensa, têm sido determinantes para reverter decisões injustas. Um exemplo recente foi a decisão do STF que reconheceu e inviabilizou o “assédio judicial” (quando diversas ações são abertas em comarcas diferentes para inviabilizar o trabalho e as finanças de jornalistas).
Jornalismo com método é o antídoto para a desinformação
Em um ecossistema digital poluído, em que a criação de uma mentira tem custo é zero, mas a apuração da verdade custa caro, Helio recomenda a prudência. Segundo ele, não vale a pena competir com a velocidade irresponsável das redes sociais. Ainda que cerca de 63% das pessoas não tenham interesse em checar as informações que consomem nas redes antes de repassá-las, o jornalista afirma que os publishers devem investir no que os algoritmos não conseguem fazer: jornalismo com método.
Na prática, isso significa chegar rigorosamente as informações, ter transparência ao admitir e corrigir os erros e respeitar a ética profissional, com profundidade analítica. E é este comportamento que dá à imprensa a credibilidade e, consequentemente, a atração de assinantes fiéis.
Inteligência artificial no jornalismo e a importância da regulação das Big Techs
O impacto da Inteligência Artificial e o domínio das grandes plataformas de tecnologia pautaram grande parte do debate. Helio falou sobre o modelo de negócios das Big Techs, em que desinformação, sentimentos como raiva e ódio geram mais engajamento e, consequentemente, mais lucro. A engrenagem é potencializada pela IA, que tem sido usada para criar ataques sofisticados, como avatares falsos de apresentadores de TV para espalhar fake news até o uso de deepfakes sexuais para desqualificar jornalistas mulheres.
Para combater esse modelo, Helio recomenda mais uma vez a união dos jornalistas e das empresas de comunicação pela aprovação de um modelo de remuneração do conteúdo e de simetria legal, para que as plataformas sejam responsabilizadas pelo conteúdo que multiplicam. Segundo ele, as plataformas de tecnologia operam hoje como grandes editoras e, portanto, precisam assumir a responsabilidade sobre o que publicam. Para isso, publishers devem apoiar e participar das mesas de diálogo que buscam essa solução.
Os riscos da polarização e do tribunal da internet
Outro ponto abordado pelo jornalista foi a polarização e constante reação do público com o cancelamento de perfis. Hélio afirma que as redes sociais criaram um ambiente de cancelamento rápido, a chamada “lacração” e o excesso de identitarismo levado a extremos. Ele ressaltou o recente caso da Folha de S.Paulo, onde uma chargista foi “linchada” virtualmente por uma coincidência infeliz entre a publicação de uma crítica sobre penduricalhos judiciais e o falecimento trágico de uma juíza, sem que houvesse qualquer intenção ou ligação da profissional com a morte.
Para evitar o aumento destas situações, Helio defende que editores e publishers não pautem a linha editorial de seus veículos pelo medo do cancelamento ou pela histeria das bolhas digitais. Como princípios fundamentais do jornalismo, o contraditório e o diálogo são vitais.
“A sociedade é plural, é diversa. A gente tem que passar o tempo inteiro conversando, dialogando e construindo consensos a partir das divergências, porque elas são elas são necessárias. É bom que que haja divergência, é bom que as pessoas possam mudar de opinião quando se dão conta de que estão erradas. E e é bom que a gente não mude opinião às vezes e nem um lado nem outro e que encontre um consenso para que haja avanço”, afirma.


