Monetização de conteúdo na Era da IA: as dicas de Pedro Burgos

Monetização de conteúdo na Era da IA: as dicas de Pedro Burgos

29 de maio de 2026
Última atualização: 2 de junho de 2026
6min
Pedro Burgos fala no Café com Aner sobre como monetizar editoras em tempos de IA
Márcia Miranda

A Inteligência Artificial (IA) tem forçado editores de revistas, publishers e profissionais de comunicação a encararem uma dura realidade: o conteúdo básico agora é commodity. Diante desta realidade, de máquinas capazes de produzir textos precisos e em volume infinito, como os veículos de mídia podem garantir a sua sobrevivência financeira e a sua relevância?

Essa foi a provocação central do 147º Café com Aner, que recebeu o jornalista, programador e especialista em IA, Pedro Burgos. Com uma visão pragmática, Burgos traçou um panorama essencial para o mercado editorial: a precisão factual já não é o nosso único — nem o maior — diferencial.

O Café com Aner é um encontro online semanal, realizado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), focado em publishers, editores e profissionais de mídia. Com mais de 140 edições, o evento gratuito discute ferramentas de tecnologia, monetização, questões jurídicas e tendências do jornalismo, geralmente às terças-feiras, às 15h, conduzido pela diretora executiva da Aner, Regina Bucco.

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O fim do monopólio do conteúdo e da precisão factual

Historicamente, jornais e revistas detinham o controle da produção de conteúdo original e monopolizavam a atenção do público. E isso era a mina de ouro, o que garantia a atração de verbas publicitárias. Mas a chegada da IA mudou essa balança. Ferramentas avançadas, como o ChatGPT Pro e o Claude, já superam muitos humanos em precisão, alucinando cada vez menos e até mesmo corrigindo falhas que revisores humanos deixam passar.

“A informação em si, a unidade de informação que é o conteúdo, não é mais fabricável apenas por jornalistas”, alertou Burgos.

Quando a IA é capaz de redigir um boletim diário ou uma newsletter personalizada e altamente contextualizada com facilidade, a concorrência na produção atinge uma escala inédita. Veículos que passaram anos focados em produzir conteúdos genéricos voltados apenas para agradar aos algoritmos do Google, focados em SEO de volume, agora se veem vulneráveis.

Acordos com Big Techs: uma proteção jurídica, não a salvação

Um dos temas mais urgentes para os executivos de mídia é o pagamento pelo uso de produções jornalísticas no treinamento de IAs. Até o momento, os grandes acordos firmados entre gigantes da tecnologia (como OpenAI e Google) e veículos de mídia (como o The Wall Street Journal, Folha e Estadão) funcionam, na prática, como uma garantia jurídica.

Segundo Burgos, estes acordos são baseados na premissa “não me processe”. Em troca de remuneração, as empresas de mídia abrem seus arquivos sem bloquear os robôs, permitindo que as plataformas citem os veículos sem o risco de infração de direitos autorais.

No entanto, para os pequenos e médios veículos, o acesso a essas negociações individuais é um desafio. O caminho apontado pelo especialista é a união do setor:

“O caminho melhor, especialmente para ajudar os veículos menores, é usando associações como a Aner, ANJ, Ajor, que ajudam a negociar melhores termos”, destacou.

Há também a possibilidade de que, no futuro, projetos de lei estabeleçam uma remuneração automática, semelhante ao pagamento de direitos autorais por execução de faixas no Spotify.

A virada de chave: monetizando o “julgamento” e o “taste”

Se a informação bruta e factual é agora gerada por máquinas de graça, o que os veículos devem vender? A resposta de Burgos é categórica: personalidade, olhar investigativo e curadoria humana.

No mercado de tecnologia, o diferencial humano é definido como taste (bom gosto ou repertório). O leitor não assina uma revista apenas pelo fato, mas pelo que a publicação escolhe cobrir e, tão importante quanto, pelo que ela escolhe ignorar.

  • Identidade e Visão Crítica: Textos de IA costumam ser excessivamente polidos, educados e genéricos. O jornalista, por outro lado, traz identidade, angulação, senso estético e capacidade investigativa de bastidores — elementos que criam vínculo real com a audiência.
  • Curadoria contra a Bolha Algorítmica: Enquanto o algoritmo do Google recomenda apenas mais do mesmo baseado no passado do usuário (ultrapersonalização), a curadoria de um bom editor apresenta novos caminhos e repertórios surpreendentes, que o leitor nem sabia que desejava consumir.

A força dos encontros físicos e da comunidade

Para as revistas e publicações especializadas, uma grande oportunidade de blindagem contra a Inteligência Artificial está na materialização da marca no mundo físico.

A IA não pode organizar prêmios reais, promover encontros da comunidade ou emitir selos de qualidade material. Burgos usou exemplos clássicos do mercado de revistas para ilustrar como a marca gera autoridade que transborda para o mundo físico:

  • A influência de prêmios gastronômicos como o do guia Michelin, o Guia Paladar ou a revista 50 Best Restaurants.
  • Eventos, guias e certificações ancorados pela credibilidade da publicação.
  • O retorno a objetos físicos colecionáveis e edições premium, como vinis ou edições especiais.

A lição que fica deste encontro com Pedro Burgos é que a tecnologia de IA deve ser incorporada nas redações como um poderoso apoio técnico de pesquisa e eficiência. Porém, para garantir a monetização em longo prazo, os veículos precisam resgatar a sua humanidade. Apostar no olhar original, na coragem das escolhas editoriais e na construção de comunidades sólidas é o único ativo que nenhum robô conseguirá replicar.

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Márcia Miranda
Administrator
Acredita que boas ideias precisam ser compartilhadas. Formada em Comunicação Social, Jornalismo, pela Universidade Federal Fluminense (RJ), iniciou carreira em redação em 1988 e por 24 anos (até 2012) trabalhou em veículos como Jornal O Globo e Agência O Globo, Editora Abril, Jornal O Fluminense, Jornal Metro. Em 2012 iniciou o trabalho como relações públicas e assessora de comunicação, atuando para clientes em áreas variadas, como grandes eventos (TED-x Rio, Réveillon em Copacabana, Jornada Mundial da Juventude, Festival MIMO), showbiz, orquestras, entretenimento e assessorias institucionais como o Instituto Innovare. É empreendedora e, em dezembro de 2021, criou a Simbiose Conteúdo, uma empresa que presta serviços e consultoria em comunicação para associações como Aner, Abral e divisões internas da TV Globo.