Aner Summit 2026: veja os melhores momentos na ESPM Tech, em São Paulo

A segunda edição do Aner Summit – Oportunidades e Desafios da IA foi um sucesso e deixou fervilhando a cabeça de publishers, profissionais e estudantes de comunicação que participaram do evento no auditório da ESPM Tech, em Vila Mariana (SP). O encontro promovido pela Aner buscou a participação dos publishers para um dia inteiro de conversas sobre como a IA está impactando o mercado de comunicação e como as empresas estão se preparando e reagindo a estas mudanças. O resultado foram insights sobre modelos de negócio, criação de ferramentas baseadas na nova tecnologia, soberania cognitiva e uso da inteligência artificial, sempre com o controle humano.
Logo no início do encontro, conduzido pela jornalista e Diretora Sênior da Blue Engine Collaborative, Sabrina Passos Cimenti, a diretora executiva da Aner, Regina Bucco, e o presidente da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), Rafael Soriano, abriram os painéis ao lado do vice presidente da ESPM, Tatsuo Iwata; e do líder de parcerias estratégicas do Google para a área de notícias, Ricardo Fiorotto. Regina e Rafael lançaram o desafio sobre a importância do questionamento e deram o tom do debate:
“O mundo é dinâmico e o jornalismo precisa ser dinâmico, precisa estar com o dedo ali na veia, sentindo o que a sociedade quer e o que o mundo tá apresentando”, afirmou Regina.
“Vamos, como diz Regina, fazer perguntas. Não sei se teremos todas as respostas, mas estaremos aqui discutindo e pensando juntos” , instigou, destacando o papel da Aner em reunir o mercado, os jornalistas, editores e fomentar o debate.



Ao lado da Aner, entidades fundamentais colaboraram para divulgação e criação do evento, como Associação Nacional de Jornais (ANJ), Instituto Palavra Aberta, Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) , Sinapro SP e o Coar Notícias, que apoiam a iniciativa. A Barões Brand Publishing deu sua contribuição como mídia partner (veja a cobertura da Barões aqui), mas o Summit Aner também tem o apoio institucional da ESPM e o patrocínio do Google.
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Debates instigantes e dinâmicos das 9 às 17h
Seguindo a recomendação de Regina Bucco, o dia foi cheio de perguntas e insights importantes para quem vive o dia a dia do mercado editorial jornalístico. No painel de abertura, mediado por Sabrina (Blue Engine), a conversa ficou em torno do tema Internet Pública vs LLMs Privadas, com os palestrantes Paulo Henrique Ferreira (Barões Brand Publishing), Guilherme Ravache (Valor Econômico e Times Brasil CNBC) e Ruth Reis (UFES). Guilherme deixou a plateia em alerta ao comentar as dificuldades que os publishers de menor porte podem enfrentar no futuro se não houver um estímulo ao financiamento público destes veículos: “Sem regulação e sem apoio público ao jornalismo independente, é uma ilusão achar que [este mercado] fica de pé”, afirmou.

Veja algumas das frases mais impactantes do primeiro painel:
Sobre o momento atual da Inteligência Artificial (além do hype):
“Este painel é importante pra gente ter uma visão crítica e bem fundamentada do que é esse momento que a gente tá vivendo. É muito mais que um hype. Isso aqui não é metaverso… não estamos falando de clube house!”
Paulo Henrique Ferreira
Sobre a importância do setor e a organização de dados estruturados:
“[…] informação confiável, estruturada, organizada, vai fazer diferença cada vez mais daqui pra frente. Por isso que eu sempre falo em todo evento, né, Regina? Publishing é um super poder”
Paulo Henrique Ferreira
Sobre a força e a responsabilidade atual do jornalismo:
“Jornal é uma marca, a imprensa é uma marca. Agora, a boa notícia é que o jornalismo está mais forte do que nunca. As marcas, quando adotam o jornalismo, elas adotam um outro compromisso […] de declarar suas crenças, seus valores, de ter qualidade, não só no conteúdo, ter qualidade nos processos”
Paulo Henrique Ferreira
Sobre a necessidade de regulação e ética:
“A gente precisa participar desse processo, participar desse debate. E construir um regramento. Seja na forma de lei, na forma de acordo, na forma de boas práticas […] que permita preservar o uso ético e responsável dessas ferramentas”.
Ruth Reis
Sobre a geração de valor e modelos de financiamento:
“A gente tem que discutir formas de financiamento das pessoas como um todo, né? Já se discute a renda universal há muito tempo […] Alguém tem que pagar, porque consumir também é produzir hoje na nossa sociedade, porque nós geramos valor”
Ruth Reis
Sobre a mediocridade do texto gerado por IA e o valor do jornalismo:
“A IA joga tudo pra média, ela é a média, ela não é o melhor. Eu não leio um veículo para ler a média. Eu quero ler um veículo porque ele faz acima da média”
Guilherme Ravache
Sobre a importância do público real em vez de algoritmos:
“Não é a plataforma no final do dia, é a relação que você constrói com a comunidade. E aí eu acho que tem um outro ponto aqui, como que a gente volta a ter uma comunidade dentro do jornalismo?”.
Guilherme Ravache
Sobre a necessidade de regulação e suporte financeiro para o setor:
“Sem regulação e sem apoio público ao jornalismo independente, é uma ilusão achar que fica de pé”
Guilherme Ravache
Painel 2: Criatividade e IA
O Painel 2 debateu os impactos e usos práticos da inteligência artificial no jornalismo brasileiro. O encontro foi mediado por Flávio Moreira (InvestNews) com a participação de especialistas como Lilian Ferreira (Grupo Bandeirantes), Helton Simões (UOL) e Diogo Cortiz (PUC-SP e UOL). Os debatedores exploram como a IA pode otimizar processos editoriais, citando exemplos como a clonagem de voz para rádio e a automação de tarefas repetitivas para liberar profissionais para investigações profundas.
Os convidados também alertaram para o risco de atrofia cognitiva e homogeneização do conteúdo, reforçando que a tecnologia deve servir como complemento à criatividade humana, e não como sua substituta. Outro ponto tocou a crise de identidade do jornalismo diante dos criadores de conteúdo e a necessidade urgente de estabelecer diretrizes éticas e governança dentro das redações.

Veja alguns dos melhores momentos do segundo painel:
O fim do trabalho braçal e o ganho de produtividade
“Quem aqui não já sofreu tirando fita, gente? Não, ninguém mais precisa usar tirar fita. Dá para usar IA para transcrever”
Lilian Ferreira
Agilidade na produção de conteúdo
“O que é mais difícil? […] Escrever um texto inteiro ou você olhar esse texto, ler e só mudar o que tá errado ou editar esse texto? É muito mais rápido você só editar esse texto. E aí você vai salvar tempo para exatamente fazer uma matéria sua investigativa”
Lilian Ferreira
Sobre a responsabilidade final do produto
“O humano ele sempre é responsável por aquilo que está saindo no final. […] a gente tenta amarrar o máximo possível a IA para manter a marca […] mas o humano ele ainda é muito responsável por tudo aquilo”
Lilian Ferreira
O “Corno Job” vs. Habilidades Essenciais
“…a gente tem que separar as habilidades que são essenciais das que são acidentais”. “é o corno job que a gente tem que fazer, que assim não vai agregar valor nenhum pra pessoa, não vai agregar valor nenhum pro processo, mas precisa ser feito. Então a inteligência artificial entra muito aí”
Diogo Cortiz
A quem serve a tecnologia?
“…definir o que de fato a gente precisa preservar, que é a essência do que a gente faz, e o que a gente pode entregar pros nossos escravos tecnológicos, que é a inteligência artificial, porque aí a gente vai escravizar a tecnologia e não vai ser escravizado por ela”
Diogo Cortiz
Estratégia de sobrevivência x tampar goteiras
“A gente tá lidando com uma tecnologia de uma vez só que traz os mesmos efeitos que a gente viu com outras quatro revoluções […] O que a gente tá fazendo basicamente é tampar as goteiras no teto. E ao tampar as goteiras no teto, a gente não consegue transmitir para quem consome esse produto […] qual é a nossa identidade”
Helton Simões
O verdadeiro ativo das redações na era da IA
“…o ativo principal das redações é quem tem contato com o mundo e consegue explicar, apurar, ver os recônditos da realidade com um toque pessoal, o que você nunca vai encontrar na IA, por mais bem treinada e por mais bilhões que as big techs invistam nelas”
Helton Simões
Talks trazem agilidade ao Aner Summit 2026
Adotados pela primeira vez nesta 2a. edição do Aner Summit, o modelo de talks ampliou os insights e aproveitou o tempo dos presentes. Nas conversas da tarde, quem abriu a fila foram Lucas Amorim (Exame) e Sérgio Maria (42Engine e 42WP) que contaram como a editora está lidando com a chegada da IA.
Lucas detalhou a evolução da revista Exame, que transitou do uso da IA como coautora para um modelo de assistência personalizada chamado Prisma. Nesse sistema, a tecnologia atua como uma ferramenta de apoio à pesquisa e produtividade, garantindo que o jornalista permaneça como o responsável final pelo conteúdo.

Sobre a ferramenta Prisma, desenvolvida pela Exame
“Cada jornalista, quando entra na Exame, começa a treinar o seu próprio assistente de IA, seu próprio robô, seu próprio agente […]. Ele vai aprender como você escreve e as bases de dados que você precisa pesquisar.”
Lucas
“Ele pode ajudar a sugerir pauta com base no que ele pesquisa, no que ele publica, auxiliar e já embalar a matéria, empacotar a matéria para SEO. Ele pode ajudar a gerar textos complementares para essa matéria como fonte de pesquisa. É uma consolidação de matérias. […] Pode pegar matérias de agência e usar como base, como ponto de partida…”
Lucas
A “Lei de Goodhart” e o perigo de focar apenas no clique
“Quando a métrica vira a meta, ela deixa de ser uma boa métrica, porque as pessoas propositadamente vão desvirtuar o comportamento para conseguir cumprir a meta, ainda que você fuja do propósito.”
Sérgio Maria
Agilidade para corrigir rotas
“A gente precisa experimentar, mas com responsabilidade (…) E se der errado, arrumar rápido eu acho que é o ponto principal.”
Sérgio Maria
Talk 2: Ecossistema da IA na Indústria de Mídia
Marcelo de Salles Gomes, presidente do Meio & Mensagem e executivo com quase 30 anos de atuação no mercado, conversou sobre a evolução das empresas de mídia para um modelo de ecossistema integrado. Segundo ele, os editores precisam superar a visão do leitor passivo, focando na criação de comunidades engajadas que geram valor estratégico e diversificação de receitas.
O executivo detalhou como o uso de dados unificados e a expansão para eventos, educação e vídeos fortaleceram a autoridade da marca no mercado publicitário, mostrou como o Meio&Mensagem aplica a inteligência artificial para otimizar processos internos e melhorar a interação com o vasto conteúdo histórico da empresa. E aproveitou para apresentar algumas ideias e modelos de negócios que estimulam a criação de comunidades pelo veículo.
“Quantos de vocês ainda veem a audiência de vocês como leitores passivos? […] reflitam um pouco e vejam se as editoras, se os trabalhos que vocês fazem não continuam tratando os leitores como pessoas passivas que estão só para receber o conteúdo que a gente produz.”
“A comunidade cria um lock-in natural, aquele efeito de rede. Quando você tem muita gente dentro da sua rede […] fica cada vez mais difícil de um concorrente vir e tirar, roubar a sua audiência.”

Talk 3: IA e os Desafios para a Soberania Cognitiva
Neste talk, a professora Eliana Loureiro (FAAP, ESPM, Mackenzie e Impacta) discutiu o conceito de soberania cognitiva diante do avanço das inteligências artificiais generativas e das redes sociais. Ela alertou sobre o abuso das tecnologias, que utilizam estratégias neurocientíficas, como comportamentos excessivamente lisonjeiros, provocando a dependência psicológica e garantindo audiência constante.
Eliana também criticou o capitalismo cognitivo e o colonialismo de dados, ressaltando que o Brasil carece de regulamentações governamentais para proteger a mente dos cidadãos contra a exploração digital.
“Nós precisamos criar regulações para essas tecnologias. Propaganda para criança, não precisa de regulação? Precisamos de regulação para essas tecnologias.”
“Em outros países há regulações e é no sentido de direitos humanos, de neurodireitos”

Talk 4: Escrevendo para Humanos, Rankeando para IAs
Nesta palestra, Marília Terra, coordenadora de SEO no QuintoAndar, discutiu a transição da otimização tradicional para o contexto das inteligências artificiais e modelos de linguagem. Ela explicou que, embora as ferramentas de busca tenham evoluído com resumos automáticos, os fundamentos do conteúdo de qualidade permanecem essenciais para atrair tanto algoritmos quanto leitores reais.
A especialista defendeu que o foco deve migrar de palavras-chave isoladas para a compreensão da intenção e comportamento humano, utilizando a tecnologia para refinar a relevância da informação.
“Durante anos a gente escreveu para algoritmos tentando parecer humanos e agora a gente tem que escrever para humanos de um jeito que as IAs entendam e prefiram usar o nosso conteúdo como referência.”
“O conteúdo não pode mais existir só para gerar clique. Ele precisa ajudar as pessoas a realmente tomar decisões, resolver um problema, ganhar confiança na sua marca.”

Talk 5: Strong News & LLMs
O jornalista Rodrigo Santos (Barões Brand Publishing e Infra ROI) explorou a interseção entre o jornalismo técnico de alta qualidade, denominado Strong News, e as ferramentas de inteligência artificial. Ele argumentou que, embora as máquinas possam automatizar a redação, o valor fundamental reside no background humano e na capacidade de observação que apenas profissionais treinados possuem.
“Não adianta ter uma produção imensa de conteúdo dentro de uma redação… Infinita. Você vai publicar onde? Para quem?”
“Jornalista vem do latim ‘diurnalis’, ou seja, o observador diário. […] a IA pode receber um input e fazer alguma coisa… mas ela jamais vai conseguir olhar [para a plateia] e fazer esse input para a máquina.”

Talk 6: IA: ferramenta ou raciocínio? Um dilema jornalístico
O jornalista e engenheiro Ricardo Gandour subiu ao palco no último talk do dia para falar sobre o impacto da ascensão da inteligência artificial na sociedade. Ele comentou que novas ferramentas alteram não a produtividade, a nossa forma de raciocinar e alertou que a IA deve servir como auxílio ao pensamento humano. O convidado também abordou os acordos realizados por empresas de comunicação com big techs responsáveis pelas LLMs.
“Eu torço para que esses negócios que as empresas estão fechando sejam realmente saudáveis, e não possam comprometer lá na frente a sua própria capacidade de geração [de jornalismo].”
“Nós estamos nesse momento no meio, no olho de um furacão que está sendo endereçado, as empresas tentando buscar negócios e os profissionais tentando ser mais produtivos… Eu torço para que os adultos na sala tenham capacidade de tomar decisões minimamente sensatas.”

Painel 3: IA na Prática: como as marcas estão reinventando o marketing em tempo real
No último painel do dia, Gabriela Portugal Bendzius (Unilever) e Regiane Bueno (Coty / ABA) conversaram sobre como as marcas estão aplicando a IA nos processos internos e na comunicação. Ambas destacaram a necessidade de governança e proteção de dados corporativos e a importância de manter a curadoria humana para evitar a pasteurização das marcas, garantindo que a essência estratégica não se perca em processos automatizados. O encontro foi mediado por Demetrios dos Santos (OKN Tech / CartaCapital) .
“Você precisa trazer do mesmo assunto formas diferentes de falar, mas isso tem que passar por uma curadoria de pessoas que realmente entendam da marca, […] qual é o propósito daquela marca para não pasteurizar e não virar realmente algo que o consumidor não vai consiga identificar de qual [campanha] é aquela marca… porque as identidades visuais serão tão parecidas que elas acabam se misturando.”
Regiane Bueno
“Em tempos de AI nunca se fez tanto estudos etnográficos como agora. […] Porque nada substitui o olhar humano, né? O recorte humano, o entendimento humano sobre um hábito, um comportamento. A chegada num insight, numa grande ideia, ela passa necessariamente por uma análise humana. Então, o humano ele tem que tá no início e no final.”
Gabriela Portugal Bendzius

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