Liberdade de Imprensa em risco: Eugênio Bucci fala sobre liberdade e jornalismo

A linha que separa o direito individual de fala e o dever democrático de investigar o poder nunca foi tão urgente para a sobrevivência do mercado editorial jornalístico. Durante a abertura da temporada 2026 do “Café com Aner”, realizado na terça-feira (3 de março), o jornalista, autor e professor titular da USP, Eugênio Bucci, falou sobre as diferenças entre a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.
Para uma audiência qualificada de publishers, editores e profissionais da comunicação, em um encontro conduzido pela diretora-executiva Regina Bucco, o recado principal foi de alerta. Eugênio afirma que a justiça brasileira tem falhado ao confundir esses dois conceitos, tratando a atividade jornalística, o sigilo da fonte e o direito de fazer “perguntas incômodas” não como garantias institucionais, mas como concessões limitadas por uma visão deturpada de “bom comportamento”.
O Café com Aner é um encontro de publishers, jornalistas, pensadores e simpatizantes, criado pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) para fomentar o diálogo e as trocas entre os profissionais do mercado editorial jornalístico. Desde 2021 mais de 130 edições já foram ao ar, sempre gratuitamente, online, como uma forma de democratizar o acesso à informação.
Painel em defesa do jornalismo no CNJ
O encontro também serviu para que a ex-presidente da Abraji, Katia Brembatti, falasse sobre um painel inédito, criado recentemente no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que evidencia dezenas de condenações e sentenças esdrúxulas que ferem os entendimentos do STF.
“A gente lançou um painel do CNJ do conselho como uma provocação da Abraji. Levamos isso ao Conselho Nacional de Justiça e o JusBrasil operacionalizou esse painel. Conseguimos reunir 24 mil ações no Brasil com relações com [o tema] liberdade de imprensa”, conta Katia, destacando que São Paulo é o estado com maior número de ações, mas que o Amazonas também aparece no ranking.
As ações a que ela se refere são contra decisões que apoiam a ótica limitadora da liberdade de expressão individual em processos contra repórteres, ignorando que a imprensa defende um direito coletivo da sociedade de ser informada.
Liberdade de imprensa como um caminho para a liberdade de todos
Durante o debate, os participantes também falaram sobre o perigo da banalização por “falsos jornalistas”, influenciadores irresponsáveis e produtores de calúnias que, sem formação ética profissional, invocam o sigilo da fonte para atacar instituições. Eugênio Bucci lembrou que prerrogativas profissionais não são salvo-conduto para abusos e crimes, citando o histórico artigo 11º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e a Constituição brasileira.
“A Constituição assegura o sigilo da fonte apenas para a profissão de jornalista”, disse. “A pessoa que é bancária não tem sigilo da fonte… o guarda de trânsito, o cientista, o cirurgião, eles não podem invocar o sigilo da fonte”, afirmou.


