COGITO ERGO SUM Uma aula magna com Roberto Muylaert
Quando fui convidado para esta Aula Magna, confesso que fiquei apreensivo. Afinal Aula Magna (melhor chamá-la de inaugural) deveria ser dada por alguma pessoa sábia, e velha.
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| Roberto Muylaert, presidente da ANER |
Como eu só cumpria metade dessas condições, passei raspando pela seleção, com nota cinco. Esse desempenho sofrível explica a minha presença aqui no dia de hoje.
Comecei a raciocinar com um cara ainda mais antigo do que eu, René Descartes, nascido em 1596, na França, e falecido em 1650, na Holanda. Tenho em comum com ele, além da vontade de racionalizar as coisas, um medo danado de vento pelas costas. Tanto que em todos os desenhos de Descartes, no final da vida, no clima frio e úmido da Holanda, ele usava um gorro de lã na cabeça.
Em matéria de não gostar de vento pelas costas, Descartes e eu estamos na boa companhia de Napoleão Bonaparte, que dizia: "prefiro um exército pela frente que um vento pelas costas".
Além de cuidar das correntes de ar, Descartes tinha boas idéias na cabeça, que enumerou no Discurso Sobre o Método, um livrinho sem pretensão, que, lido por alto, não deixa residual algum. Mas como livro de cabeceira pode ser muito útil.
"É preciso ler e assimilar", pontificava meu mestre de português, o professor Vale.
Vamos relacionar Descartes à história do Brasil, ainda que indiretamente: ele alistou-se, em 1618, no exército de Maurício de Nassau, aquele mesmo que invadiu Pernambuco. Descartes não participou da incursão militar.
Foi quando a Holanda se instalou nos trópicos, por 15 anos, sendo que Nassau permaneceu oito anos no Brasil. Foi então despedido da empresa privada onde prestava serviços, a Companhia das Indias Ocidentais, o primeiro PPP, projeto público-privado da história deste país, que Dilma tem agora a missão de continuar.
Aqui mesmo, em São Paulo, na casa de uma colecionadora de artes, no Morumbi, existe um de relatório de diretoria, feito por Nassau nas primeiras décadas do século XVII, para impressionar os diretores da Companhia das Indias Ocidentais. Quem sabe conseguir um aumento. Ali consta obra por obra realizada por ele no Brasil, com preciosas ilustrações coloridas. Pra ver como o homem era moderno.
A invasão de Pernambuco foi um empreendimento comercial. Uma companhia holandesa, no melhor estilo da globalização, instala-se no Brasil para montar engenhos de açúcar, por encomenda dos portugueses. Mas não transfere tecnologia para os clientes lusitanos, que esqueceram de colocar a cláusula no contrato, o que nunca aconteceria com o nosso ministro Jobim e sua obsessão por comprar o Rafale, avião francês.
A invasão holandesa veio em seguida, no melhor estilo norte-americano no Iraque, garantindo, pela força, a matéria prima, no caso, não o petróleo, mas o açúcar.
Na época de Nassau, o preço do açúcar caiu pela metade no mercado internacional. Sem ter lucro para a Companhia das Indias Ocidentais, não compensava mais ficar no por aqui.
Agora que relacionamos Descartes ao Brasil, vale lembrar que sua sacada mais útil até hoje são as coordenadas cartesianas, por onde se fazem representações de gráficos e tabelas, cobrindo todos os assuntos.
Não seria exagero dizer que Descartes criou o Excel, da Microsoft, que nada mais faz do que usar as idéias do filósofo, sem pagar nenhum direito autoral para ele, assim como acontece com tudo que a Internet reproduz da mídia tradicional, também sem pagar.
Daí resultou a épura, termo conhecido pelos alunos de geometria descritiva, como primeiro passo para a representação de figuras tridimensionais, a partir de projeções planas, a lápis, antes da existência do CAD.
Em matéria de lápis, há uma história de quando russos e americanos construíram em conjunto, a estação espacial. O astronauta americano mostrou orgulhoso para o colega russo, uma caneta esferográfica espacial, cujo desenvolvimento pela Nasa tinha custado 4 milhões de dólares, para poder escrever até com a caneta de cabeça para baixo, se é que isso existe no espaço.
O russo ficou admirado com a invenção. Ao que o americano perguntou: "vocês também desenvolveram um aparelho como esse, para fazer anotações em suas viagens espaciais?". Responde o russo: "Não senhor, estamos atrasados, não temos verba para desenvolver um aparelho desses. Na ausência de gravidade, usamos lápis".
Outra coisa que todo mundo sabe sobre Descartes, é que ele começou a formular a sua teoria a partir da frase "Penso, logo existo", ou ainda mais chique, em latim: "Cogito, ergo sum".
Mas falar só isso é como saber da equação de Einstein, apenas e=mc2, da tal da teoria da relatividade, que a gente nunca consegue entender direito, mesmo.
O único consolo é que a divulgação da teoria foi retardada, à época do lançamento, porque não havia nenhum sabichão contemporâneo de Einstein que conseguisse entender a coisa, para aprovar ou fazer reparos ao homem. Consta que se Einstein não tivesse existido, sua teoria ainda levaria 70 anos para ser desenvolvida.
Falar dos princípios de Descartes e de suas idéias revolucionárias no dia de hoje, é fácil. Mas precisa lembrar que ele lançou essas idéias no século XVII, época em que as superstições, e a Igreja, forneciam as verdades absolutas, sem contestação. Que o diga Galileu, condenado pela Inquisição, por dizer que a terra girava em torno do sol.
Descartes foi mais esperto, deixou na gaveta o seu Tratado do Mundo, de 1629, uma obra de física, que a humanidade perdeu, mas ele conseguiu salvar a pele.
"O que vale é o raciocínio", concluiu o filósofo. "Só vale o que puder ser provado". São princípios básicos do Discurso Sobre o Método.
Vale a pena pensar neles, agora que uma vida nova começa para vocês.
Decorridos quatro séculos, as idéias de Descartes ainda servem muito bem à humanidade, e podem ajudar na maneira com que os novos administradores vão encarar os problemas à sua frente.
Regras básicas de Descartes:
1 - Nunca aceitar como verdadeiro, o que não se reconhece claramente como tal.
2 - Repartir cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas possíveis e necessárias, para melhor solucioná-las.
(Gente muito ocupada, juntar papel sem ter para quem mandar, trabalhar é encaminhar a papelada. Claudio Lembo).
3 - Conduzir os pensamentos dos mais simples e fáceis de compreender, aos conhecimentos mais complexos.
(se misturar os problemas, não resolve nenhum. Vamos por partes, conforme manda Descartes).
4 - Efetuar relações metódicas tão completas, e revisões tão gerais, que possa haver certeza de que nada foi omitido.
Nesse ponto saltamos os quatrocentos anos que nos separam de Descartes, para a Universidade de Stanford, 1971, curso de business, onde encontrei um professor que aplicava na prática esse último princípio.
Henry B. Eyring, professor de Business Management dava um curso de "tomada de decisões", que me acompanhou por toda a vida.
Naquele dia, o professor começou dizendo que todo problema tem uma solução simples, prática, rápida..., e provavelmente errada.
Depois desse preâmbulo, começou a ensinar como é que se faz.
Naquele dia cheguei à sala de aula de bicicleta, assim como os 40 colegas norte-americanos e 40 estrangeiros que compunham a classe.
Eyring estava inspirado: encheu todos os quadros negros (verdes) disponíveis, com as respostas dos alunos a uma questão sobre a Olivetti, um case que havia sido lido por todos os alunos, na véspera.
Ele perguntava como deveria prosseguir a linha de produção da companhia italiana, face às ameaças que corria a máquina de escrever.
O professor aceitava todas as respostas dos alunos, e ia anotando no quadro negro as sugestões:
"A Olivetti deveria fabricar computadores main frame", disse um. Outro argumentou que "a empresa deveria iniciar uma linha de peças especiais para automóveis, uma vez que a Fiat também era italiana". Um terceiro argumentava que "o futuro estava em copiar a maravilha que era a máquina elétrica de esfera, patente da IBM, que, com uma fita perfurada imprimia automaticamente os endereços de um mailing list".
Eiring só censurava as sugestões criativas em excesso. Exemplo: "raquetes de tênis Olivetti!".
Quando três quadros negros estavam tomados por sugestões, o professor arremessa a pedra de giz para longe, e dirige-se à saída.
Os alunos americanos acham normal o final abrupto da aula.
Mas os estrangeiros, acostumados com o magister dixit da tradição francesa e brasileira, rodeiam Eyring na porta:
"Professor, o senhor anotou tantas hipóteses sobre o problema apresentado, mas esqueceu de nos dizer qual é a resposta certa".
Ao que ele respondeu de bate pronto:
"Quando vocês tiverem que resolver um problema na sua empresa, não haverá ninguém por lá para dizer qual é a solução certa.
"A única chance de dar certo será quando vocês tiverem passado por todas as alternativas possíveis de solução, na tentativa de resolver o problema".
Usei bastante esse conselho na vida profissional.
Se quiserem usar também, não façam cerimônia...
Tenho certeza que o professor Eyring ficará bem feliz!
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ROBERTO MUYLAERT , 74, jornalista, é editor, escritor e presidente da Aner (Associação Nacional dos Editores de Revistas). Foi presidente da TV Cultura de São Paulo (1986 a 1995) e ministro-chefe da Secretaria da Comunicação Social (1995, governo FHC).
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